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Livros são tributos a Aleijadinho, o artífice colonial desconhecido

Obras revelam a beleza de uma escultura que pode não ser de um único autor, mas de oficinas artesanais coletivas

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

12 Dezembro 2014 | 03h00

O catálogo da exposição Lugares de Aleijadinho, que esteve em cartaz até recentemente na Biblioteca Mário de Andrade, traz, logo no início, uma observação relevante do diretor da instituição, Luiz Armando Bagolin. O professor questiona a autoria de uma obra que pode não ser a de um indivíduo, mas coletiva, defendendo que, para atender às demandas da Igreja e do governo colonial, seriam necessários vários Aleijadinhos viajando pela capitania de Minas Gerais.

Em todo caso, mesmo considerando a hipótese de que todas as obras a ele atribuídas sejam de sua autoria, ainda restam outras questões a esclarecer, a principal delas referente às condições a que estava submetido um artífice preso às regras da Contrarreforma. Segundo Bagolin, a apreciação das obras de Aleijadinho tem sido prejudicada pelos historiadores pela separação desses trabalhos do contexto em que foram produzidos. “Os críticos, do período romântico em diante, tomaram essas obras como objetos estéticos”, argumenta Bagolin, e esqueceram que essas esculturas estavam estreitamente ligadas às “narrativas cênicas teológicas para as quais haviam sido feitas”.

Prevalece, enfim, a moderna ideia de “estilo” nas interpretações críticas de Aleijadinho, segundo o professor, que, junto à fantasiosa biografia escrita por Rodrigo José Ferreira Bretas (1815-1866), mais têm confundido do que esclarecido o fenômeno Aleijadinho. Nesse jogo de livre interpretação, até o historiador de arte francês Germain Bazin (1901-1990) pode ter cometido um ou outro equívoco nos vários livros que publicou sobre arquitetura e escultura barroca do Brasil entre os anos 1950 e 1960. 

Bagolin lembra que Bazin, em seu livro sobre Aleijadinho, nota que os tipos e roupagens de origem bizantina introduzidos na Itália no século 15 podem ter servido de referência iconográfica para os profetas de Congonhas, forçando uma relação analógica que situa a sua obra entre o rococó e o barroco.

Bazin foi um entre muitos estrangeiros seduzidos pela beleza das esculturas atribuídas a Aleijadinho. Quase na mesma época em que Bazin conheceu Minas, em 1945, o fotógrafo argentino Horacio Coppola (1906-2012) passou por lá para registrar a obra do escultor, trabalho reunido no livro Luz, Cedro e Pedra, do Instituto Moreira Salles, que lança agora o livro A Forma da Luz, em que Coppola aparece ao lado de outros quatro grandes profissionais.

A exemplo dos críticos modernos, Coppola se interessou pelos detalhes que poderiam, eventualmente, identificar o “estilo” Aleijadinho (olhos amendoados, nariz afilado, queixo dividido), carregando no jogo de sombras para destacar a “expressividade” de um autor que, na verdade, estava submetido a um programa iconográfico contrarreformista, a um modelo de representação consagrado pela Igreja. Assim, as homenagens ao bicentenário de Aleijadinho bem podem ser, na verdade, um tributo ao artífice colonial desconhecido a serviço da Igreja para converter infiéis pela beleza.

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