Daniel Teixeira/Estadão
Daniel Teixeira/Estadão

Livro reúne obras e revê trajetória do artista ítalo-brasileiro Guido Totoli

Em entrevista ao Estado, artista revela planos, aos 80 anos, para os próximos trabalhos

Pedro Rocha, Especial para o Estado

24 Abril 2018 | 06h00

A quantidade de obras espalhadas impressiona. Em seu ateliê, no Butantã, em São Paulo, o artista plástico Guido Totoli recebe, com conversas bem-humoradas, sorriso no rosto e um café fresco, feito por Pietrina, sua mulher, a equipe de reportagem. Além da oficina onde produz peças de cerâmica, os diversos cômodos do ateliê abrigam ainda inúmeras pinturas, esculturas e desenhos do artista, que completou no ano passado 80 anos de vida e ganha um livro, Arte em Quatro Dimensões, escrito e organizado por Emanuel von Lauenstein Massarani, sobre o seu trabalho ao longo dos anos. O lançamento será nesta terça-feira, 24, no Shopping JK Iguatemi, às 18h30. 

Quantos anos de carreira, porém? Guido não sabe dizer. Nascido na vila de Mercato Cilento, na Itália, começou a esculpir criança, com quatro ou cinco anos, segundo contava sua mãe, com a argila abundante nas encostas próximas à sua casa. Arte não era algo comum na região. “Em quilômetros, não se sabe de alguém que esculpisse”, afirma o artista, que, na juventude, estudou desenho, pintura, escultura e cerâmica em Salerno. A vinda para o Brasil se deu na virada de 1959 para 1960, para reencontrar sua então namorada, Pietrina, que havia imigrado para o País com seus irmãos. “Tinha um irmão nos EUA e iria para lá. Mas foi bom não ter ido porque não gosto daquele lugar.”

Guido hoje se sente brasileiro. “Não tenho nada na Itália”, diz. Foi aqui que trabalhou, por décadas, com painéis publicitários. Com arte, trabalhava apenas aos finais de semana e feriado. Só na década de 1990, quando um dos filhos assumiu o comando dos negócios da família, passou a se dedicar integralmente ao seu ateliê. “Nunca me preocupei de um dia valer alguma coisa. Pintava e dava de presente.” Por isso, o artista não sabe, ao certo, quantas obras já fez. “Já estive em lugares em que vi um quadro e pensei que o conhecia de algum lugar. Era meu e já havia esquecido.”

O livro foi uma idealização de Massarani, amigo de Guido há cerca de dez anos, e da filha do artista, Claudia. “Não coloquei um dedo. Praticamente não participei”, assume Totoli, que afirma que a publicação, feita ao longo de dois anos, deve ter apenas cerca de 5% de toda a obra que fez durante a vida. “Sinceramente, não gosto muito dessas coisas. Nunca apareci, nunca fui atrás da mídia. Mas fiquei contente que fizeram, ficou bonito.”

Massarani, que atua como diretor do Instituto de Recuperação do Patrimônio Histórico no Estado de São Paulo, uma Organização da Sociedade Civil de Interesse Público, já realizou várias exposições do trabalho de Guido Totoli. Uma, inclusive, na Assembleia Legislativa de São Paulo, em 2013. “A primeira vez em que estive no estúdio dele, conheci as pinturas, esculturas e cerâmica, fiquei encantado”, revela o autor. Para Massarani, a intenção principal do livro Arte em Quatro Dimensões era organizar a obra de Totoli em temáticas. “Queria separar cada assunto para mostrar a diversidade, a variedade das criações.”

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“O maravilhoso é que ele é uma pessoa de idade que não para de progredir ou de estudar”, admira-se Massarani, que possui uma idade próxima, 84 anos. Guido, de fato, não pensa em se aposentar do trabalho como artista. “Nunca passou pela minha cabeça.” Quando se mudou ao Brasil, teve contato com os artistas modernos, como Volpi. Ao longo de quase 60 anos no País, porém, passou por vários estilos, pintando e esculpindo imagens sacras, mitológicas e humanas. “Vai do momento em que você está vivendo, o que pode demorar alguns anos.”

Uma grande preocupação do artista sempre foi deixar o seu estilo próprio registrado. “Sempre pensei em fazer alguma coisa que fosse minha. Mesmo que medíocre, minha”, brinca. Um dos traços mais característicos seus vem das esculturas, que contam sempre com furos, de vários tamanhos e formas. Ele já furava as peças de argila para deixar os gases escaparem, mas sempre reconstituía as figuras. “Um dia fui almoçar. Quando voltei, vi os furos e me deu a ideia.” Segundo Guido, os furos despertam a curiosidade dos espectadores. “Esses furos dizem algo. E com a arte você tem que dizer alguma coisa sempre.”

Para os próximos trabalhos, Totoli planeja algo que invada o mundo metafísico. A primeira criação, ele mostra à reportagem, é uma estátua feminina de duas cabeças. E vários furos, claro. “Nunca fico satisfeito, mas é um lado da arte, você nunca pode estar satisfeito com nada”, acredita ele. “Você tem sempre que ter uma dúvida, algo a mais.”



 

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