Mauro Restiffe/Divulgação
Mauro Restiffe/Divulgação

Livro reúne duas décadas de produção de Mauro Restiffe

Imagens da Rússia e de outros países integram o volume, que mostra como a linguagem do fotógrafo foi marcada pelo cinema

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

17 Dezembro 2016 | 05h00

Mauro Restiffe é um caso singular na fotografia contemporânea brasileira. Estudou cinema na Faap, mas nunca assinou as imagens de um filme. Por outro lado, produz fotos que parecem fotogramas de uma produção cinematográfica – e o nome do diretor húngaro Béla Tarr surge automaticamente quando se vê uma dessas imagens (por exemplo, a foto Pyramid, reproduzida abaixo). Restiffe adora cinema, em especial Béla Tarr, o diretor de O Cavalo de Turim. Infelizmente, essa parceria não vai se firmar. Tarr anunciou sua aposentadoria há cinco anos.

Restiffe, nascido em São José do Rio Pardo há 46 anos, estudou artes e fotografia em Nova York. Expôs pela primeira vez há 22 anos, no Mês Internacional da Fotografia, e, desde então, tem recebido elogios de críticos estrangeiros como Dan Cameron, um dos primeiros a notar o procedimento “cinematográfico” do autor e sua preferência pelo preto e branco como forma de “buscar uma imagem em sua essência”.

Pois seu primeiro livro, simplesmente chamado Mauro Restiffe, é todo em preto e branco. Dedicado a Charles Cosac, seu coordenador editorial, trata-se de uma obra que o fotógrafo define como “a compilação de uma prática, de 1994 a 2016.” Nela, ele “embaralha” tudo para criar uma narrativa autônoma, independente de um discurso literário ou crítico. Tanto que o livro não traz textos. Vem apenas com um encarte com o título e o ano em que foram produzidas as fotos.

Algumas locações são imediatamente reconhecíveis (Brasília, Moscou). Outras, nem tanto. Restiffe, que fotografou muitas obras de arte para catálogos de artistas, pesquisou os limites entre a pintura e a fotografia. O resultado é uma volta ao mundo por meio dos afrescos renascentistas italianos, ícones russos e pinturas barrocas, que conquistam uma nova dimensão em preto e branco – a quarta dimensão, para ser mais preciso, considerando a reprodução de um afresco de Fra Angelico (de 1430) feita na Rússia, em 1996, em que o vidro que protege a pintura (que entrou no Hermitage em 1882) reflete a figura de São Domingos como se fosse um espírito.

O olhar de Restiffe se formou em museus – também no Hermitage, pois ele morou quase um ano em São Petersburgo. Agora mesmo prepara um ensaio sobre a avenida Paulista para uma coletiva no Masp, em fevereiro de 2017. “Minha formação se deu no Masp, que era o meu quintal”, revela, lembrando os primeiros anos, em que começou a pesquisar a transfiguração da imagem pictórica numa imagem concreta através de seu reflexo.

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