Livro relata as histórias de cidadania da Eldorado

João Lara Mesquita, que dirigiu a emissora até 2003, autografa hoje sua obra

Patrícia Villalba, O Estadao de S.Paulo

22 de setembro de 2008 | 00h00

Daria uma cena de cinema o momento em que um dos herdeiros de um grupo de mídia nacional chega de Nova York, onde passara algum tempo estudando música na Juilliard School, para recuperar uma empoeirada rádio da família. Contando apenas com equipamentos dos anos 50, ele tenta transformá-la numa das emissoras mais influentes do País. E consegue. Não é filme, mas um dos capítulos do livro Eldorado - A Rádio Cidadã, que o jornalista João Lara Mesquita lança hoje, no Restaurante Dom Pedro.No livro, João Lara relata os fatos mais marcantes do período em que dirigiu a rádio, entre 1982 e 2003, uma maneira de reconhecer o trabalho dos funcionários que arregaçaram as mangas e estiveram ao seu lado nos momentos mais difíceis da reestruturação das emissoras AM (700 KHz)e FM (92,9 MHz) do Grupo Estado. "A idéia de escrever o livro surgiu lá na rádio quando soube que ia sair da direção. Achei que seria bom registrar aqueles momentos, pela singularidade da história", explica o autor. "Quis fazer uma homenagem aos funcionários que trabalharam comigo, apostaram na rádio. Eu achava que tinha um pouco de obrigação de resgatar essa história."Eram tempos difíceis, mas de grande entusiasmo. João Lara dá detalhes sobre a aventura de relançamento da faixa FM, em julho de 1982. "Partíamos do princípio de que nossa audiência era formada por gente culta, interessada, curiosa e com bom poder aquisitivo", escreve o autor. Assim, com tato, logo a nova programação rejuvenesceria a então emissora que, nas palavras do ex-diretor, parecia ter parado em 1958, ano de sua fundação. "Eu fazia as mudanças na rádio como se eu mesmo fosse o ouvinte. Naquela época, o padrão era a Rádio Cidade, todas se miravam nela - era um vitrolão, que tocava praticamente só sucesso e tinha muita brincadeira de locutor. Não quisemos ser mais uma."O lado B dos discos, muito além dos sucessos fáceis que martelavam no rádio, a cobertura esportiva diferenciada e o apoio ao melhor da produção cultural da cidade logo fizeram da Eldorado a preferida dos formadores de opinião. "Procuramos gueto por gueto e, de repente, começou o boca a boca", conta o autor. "Às vezes, você pegava a nossa audiência do mês e via que 100% do público tinha curso superior. Eu ria, porque rádio é conhecido como um veículo popular."Entre os episódios mais memoráveis da história da Eldorado, João Lara destaca a cobertura que fez do rali Paris-Dacar, em 1989 - "Pela primeira vez, um brasileiro havia conseguido chegar ao fim" -, o Prêmio Cara-de-Pau - uma campanha da rádio pela moralização da política, lançada em 1999 -, a mobilização pelo fim da obrigatoriedade de veiculação da Voz do Brasil e o apoio à difusão musical, com o Prêmio Eldorado de Música, criado em 1984.Há destaque ainda para o papel da Eldorado na defesa do meio ambiente, como no caso da fundação do Núcleo União Pró-Tietê. O que começou como uma reportagem especial em 1988, acabou se tornando uma grande mobilização pela necessidade de despoluição do rio. "Passados estes anos, temos muito do que nos orgulhar. O Núcleo continua ativo, e muito ativo, até hoje. As duas primeiras etapas de obras foram encerradas com sucesso, e 2 bilhões de dólares foram investidos", anota o autor.Num relato emocionado, não poderiam faltar histórias engraçadas, típicas de redação. Uma das melhores é a de um encontro entre João Lara e Adoniran Barbosa no elevador do prédio da Rua Major Quedinho, antiga sede da Eldorado. "Proibido por seus médicos de praticar boemia noturna, ele se dedicava à diurna: almoçava no bar Mutamba, vizinho nosso, tomava suas biritas e depois subia para a rádio, onde se instalava num sofá aconchegante, escolhido para a sesta diária. E lá passava as tardes. Todo dia era a mesma coisa", escreve o autor. "Não canso de repetir, e não vou esquecer: foram anos divertidos e lindos. Emocionantes!" TrechoO primeiro Prêmio Eldorado de Música foi um tremendo sucesso, com 150 inscritos do Brasil todo. E foi o grande acontecimento musical daquele ano. A final foi uma noitada tensa e animada; os seis candidatos se apresentaram diante de uma casa lotada. (...) Foi uma noite linda, com uma platéia extremamente ativa, formada por muitos músicos, professores, cantores líricos, estudantes e parentes dos candidatos. O público gritava "bravo!", apostava para saber quem seria o ganhador, comentava a apresentação de cada um e torcia.

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