Livro refaz a luta pela Lei de Fomento

O volume, a ser lançado hoje, analisa a peça-chave da arte coletiva feita em SP

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

19 de novembro de 2008 | 00h00

Por seu valor documental já se configura de grande importância o livro que será lançado hoje, às 21 horas, no Espaço Parlapatões - A Luta dos Grupos Teatrais de São Paulo por Políticas Públicas Para a Cultura: 5 Anos de Lei de Fomento. Trata-se de uma pesquisa de fôlego, um volume de 280 páginas, fartamente ilustrado com mais de 100 fotos de trabalhos teatrais desenvolvidos com apoio da lei, até onde se sabe publicação única no que diz respeito ao acompanhamento minucioso desde a origem, formulação e funcionamento de um mecanismo público de apoio à arte.A idéia de fazer um balanço da Lei de Fomento - programa público de apoio à criação e manutenção de núcleos teatrais de trabalho contínuo, visando ao aprimoramento estético e ao acesso da população às suas criações artísticas - surgiu na Cooperativa Paulista de Teatro e, para a sua realização, foram convidados os professores e pesquisadores Dorberto Carvalho e Iná Camargo Costa. A partir de entrevistas, reportagens publicadas na imprensa, reprodução de gravações de reuniões da classe teatral e publicações dos próprios grupos, como o jornal O Sarrafo, os pesquisadores conduzem o leitor, etapa por etapa, a acompanhar a movimentação da classe teatral auto-intitulada Arte Contra a Barbárie - iniciado em 1998 - que resultou na Lei de Fomento.Promulgada a lei no dia 8 de janeiro de 2002 - por meio do Programa Municipal de Fomento ao Teatro -, é a vez de o leitor acompanhar sua implantação e funcionamento ao longo de 11 edições, por meio das quais foram beneficiados 162 projetos de 79 núcleos artísticos selecionados entre 1.116 inscritos no período que vai de junho de 2002 a junho de 2207. São de inestimável valor documental os dados cedidos pela Secretaria Municipal de Cultura e publicados ao longo das 70 páginas finais no volume. Por meio deles se pode acompanhar a localização dos grupos beneficiados por região, a quantidade de vezes que cada um foi beneficiado, a abertura de novos espaços teatrais, a circulação de espetáculos e o montante da verba destinada ao programa em cada edição, num total de R$ 42.174.700,09 ao longo das 11 edições analisadas.Dorberto Carvalho foi o responsável pela pesquisa de campo e Iná Camargo Costa organizou e editou o vasto material. As 40 primeiras páginas analisam o contexto no qual surge o movimento Arte Contra a Barbárie desde as primeiras reuniões, em 1998, passando pelo primeiro manifesto, publicado na imprensa no dia 7 de maio de 1999 e discutido mais amplamente no dia 10 no Teatro da Aliança Francesa, na época sede do Grupo Tapa. E segue a trilha das discussões que ora se amplia em grandes fóruns - o Teatro Oficina passou a ser palco desses grandes encontros - ora se reduz em comissões para aprofundar temas.Nesse panorama inicial, o volume traz na íntegra os três primeiros manifestos e acompanha o aprofundamento das reflexões sobre o papel da cultura como "exercício crítico da cidadania" e a responsabilidade do Estado no fomento à arte. Muitas foram as contribuições para a reunião do acervo resultante do movimento, entre elas a da atriz Márcia de Barros, que preservou os DVDs com gravação dessas reuniões, transcritos por Dorberto para a organizadora Iná Camargo Costa. Também foi fundamental o acompanhamento do trabalho dos grupos feito pela Secretaria Municipal de Cultura no início da implantação da lei.Chama atenção o acervo crítico acumulado nas discussões do Movimento Arte Contra a Barbárie. Os trechos de textos transcritos revelam a potência do movimento em seu nascedouro e o aprofundamento das reflexões em torno da importância da Cultura, e da Arte, no desenvolvimento dos cidadãos. Numa segunda etapa, discute-se a necessidade de políticas públicas voltadas para o aprimoramento técnico, artístico e crítico da arte teatral na cidade.Curiosamente, o livro acaba por ser revelador de uma contradição intrínseca ao próprio movimento: a conquista resultante, Lei de Fomento, foi a um só tempo grande e pequena. Grande porque sinalizou um modelo de política pública com evidentes efeitos positivos sobre a cena teatral, cuidadosamente analisados no livro. Pequena porque acabou se tornando apenas um mecanismo isolado, que atende uma parcela da produção cultural. O movimento desmobilizou-se sem ter alcançado seu objetivo maior, ?políticas públicas? amplas para a arte, como reivindicavam, com bastante propriedade, seus militantes. As limitações desse mecanismo, a Lei de Fomento, que pede aperfeiçoamento e complementação, não escapam à professora Iná. Não por acaso, ela encerra sua análise com muitas indagações sobre os rumos do programa.Apesar das contradições, quem acompanha a cena teatral paulistana não ignora resultados extremamente bem-sucedidos. Algumas comunidades tiveram sua geografia cultural transformada pela ação de grupos, que por sua vez passaram por evidente aprimoramento estético. Exemplos claros dessa combinação, como o Grupo XIX, instalado em Vila Maria Zélia; o Pombas Urbanas, em Cidade Tiradentes; o trabalho da Cia. Estável primeiro em Cangaíba e agora no Arsenal da Esperança, na Mooca; e o grupo As Graças, que transformou um ônibus em teatro que já circulou por toda a periferia, são apenas alguns exemplos que, por si só, já justificariam a existência de uma política pública para o teatro como o Fomento. ServiçoA Luta dos Grupos Teatrais de São Paulo por Políticas Públicas Para a Cultura. De Iná Camargo Costa. Espaço Parlapatões. Praça Roosevelt, 158. Lançamento hoje, às 21 h

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