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Livro mostra como a Kodak criou o turista-fotógrafo

Obra da pesquisadora Lívia Aquino analisa um século da história da empresa, da virada do século 19 aos anos 1970

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

28 Dezembro 2016 | 05h00

Fotografia e turismo são indissociáveis, mas uma empresa teve papel fundamental no incremento da foto amadora, a ponto de virar tema da tese de doutorado da pesquisadora e professora Lívia Aquino, agora disponível em livro publicado pelo Ministério da Cultura e Funarte, Picture Ahead: a Kodak e a Construção do Turista-Fotógrafo. Trabalho vencedor do prêmio Funarte Marc Ferrez de Fotografia de 2015, o livro analisa anúncios, cartazes, publicações e outdoors feitos pela empresa desde a virada do século 19 até 1970, mostrando como a Kodak agiu para formar o personagem do “caçador’ de imagens que, no entender da ensaísta norte-americana Susan Sontag (1933-2004), se assemelha a um predador.

Lívia Aquino não concorda inteiramente com ela. Lembra que Sontag escreveu isso nos anos 1970 – e que é preciso, portanto, contextualizar esse ensaio. “Havia ali o reconhecimento de uma fotografia aliada a práticas predatórias, de um fotógrafo que sai em busca de imagens pelo mundo e volta sem conhecer aquele local visitado, a cultura e as pessoas”. Contudo, reconhece a ensaísta brasileira, ela reitera parcialmente as observações de Sontag sobre tal procedimento, ao revelar práticas da Kodak em que se alinham caça e fotografia.

Seu livro, aliás, mostra como a afinidade entre fotografia e a caça acabou aproximando, em 1881, George Eastman, o fundador da Kodak e inventor do filme em rolo, de um fabricante de armas, William Walker, para pesquisar o funcionamento de peças e produtos químicos usados nos filmes, a ponto de Eastman criar o slogan “Você puxa o gatilho, nós fazemos o resto”, que deveria seduzir fotógrafos amadores avessos a câmeras sofisticadas. Eastman, conta a autora, adorava um safári no continente africano, dedicando-se  às excursões para fotografar, acampar e caçar,  logo após deixar a presidência da Kodak, em 1925.

Desde 1839, quando surgiu, a fotografia “encontra-se vinculada aos deslocamentos e ao desejo de exploração do mundo”, observa a ensaísta Lívia Aquino, concluindo que fotografia e turismo são “experiências da modernidade”. A autora observa que, dos anos 1980 em diante, fotógrafos como o inglês Martin Parr invertem a equação e passam a “mostrar o turista como objeto” – e ela se refere particularmente à série The Last Resort, em que Parr se mostra implacável com os frequentadores dos balneários de New Brighton, registrando o mundo real da classe operária inglesa em duplicata, como se fosse um membro da família com olhar crítico – enfim, um sarcástico turista-fotógrafo.

Outros fotógrafos, como o catalão Joan Fontcuberta – que emula, de modo irônico, o estilo da National Geographic – ou a suíça Corinne Violet – que coleta fotos de turistas em sites de compartilhamento – são analisados na tese de Lívia Aquino, mas o foco do livro é mesmo a figura do turista-fotógrafo que caça imagens, justificando seu título, Picture Ahead (Foto Adiante), slogan usado em 1920 pela Kodak numa campanha publicitária. A empresa espalhou 6 mil placas pelos EUA para chamar a atenção dos fotógrafos, então sujeitos passivos que, segundo outro slogan, não precisavam fazer nada além de apertar o botão da câmera. “Desde o início, a Kodak engendra práticas que levam o sujeito a certa passividade, mesmo que no discurso dos anúncios e das estratégias fosse dado ao cliente uma suposta escolha”, reflete a autora do livro.

Por outro lado, a empresa investiu pesado na formação do público, não só por meio da publicidade, mas principalmente pela publicação de livros, manuais e revistas especializadas, entre as décadas de 1870 e 1890, edições que traziam em seus títulos a palavra “amador”. Esse amador não tardou a virar predador, como observou Susan Sontag e o filósofo checo Vilém Flusser (1920-1991), colaborador do Suplemento Literário do Estadão.

Flusser comparou o gesto do fotógrafo ao movimento do caçador paleolítico que persegue a caça, como lembra no livro a ensaísta Lívia Aquino. Ao promover a popularização da fotografia, a Kodak também ajudou a disseminar falsas duplicatas do mundo registradas por turistas fotógrafos. A propósito desse mundo-imagem falso, a autora menciona os dois soldados que voltam do exterior com cartões postais em Tempos de Guerra (1963), filme de Godard em que a dupla de personagens associa imagens de monumentos das cidades por onde passaram a conquistas militares – Flusser, mais uma vez, estava certo.

Contraponto à figura do fotógrafo como caçador, a figura da Kodak Girl criada por George Eastman e Lewis B. Jones evidencia a mudança de rumo publicitário da empresa, sensível à evolução da sociedade – a “Garota Kodak”, nos anos 1920, era independente, feminista e andava desacompanhada. “Mas ela não era tão livre assim”, observa a autora. “A publicidade nos coloca diante de uma armadilha”, conclui. A armadilha, claro, é a campanha publicitária que a mostra como um ser que circula por todos os lugares. Com sua Kodak a tiracolo, evidentemente.

 

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