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Livro e exposição reúnem imagens registradas pelo francês Edmond Fortier no início do século 20

É digno de nota que a primeira obra dedicado ao trabalho dele seja de uma historiadora brasileira, Daniela Moreau, que há mais de dez anos coleciona os cartões-postais do fotógrafo

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

30 de novembro de 2015 | 03h00

Há 100 anos, um fotógrafo nascido na Alsácia, Edmond Fortier (1862-1928), iniciou uma expedição pelo continente africano para captar imagens de moças bonitas, tribos e paisagens. Documentou tudo aquilo que, segundo seu tino comercial, poderia interessar aos impressores europeus, então ávidos por imagens capazes de atender à crescente demanda de cartões-postais, em moda no começo do século passado. O que seria apenas uma aventura terminou, porém, como um registro histórico dos povos africanos e lugares como a lendária cidade de Timbuktu, então parte do Sudão francês, quando estrangeiros infiéis – isto é, não muçulmanos – eram vistos com desconfiança na porta do Saara (ao norte do atual Mali, palco de recentes atos terroristas). É digno de nota que o primeiro livro dedicado à obra de Fortier, que produziu mais de 3.500 imagens, seja de uma historiadora brasileira, Daniela Moreau, que há mais de dez anos coleciona os cartões-postais do fotógrafo, expostos no Instituto Tomie Ohtake até 25 de janeiro de 2016.

A exposição traz 200 fotos de Fortier, que integram o luxuoso livro Viagem a Timbuktu. Trata-se de um esforço editorial para divulgar não apenas o trabalho do fotógrafo, mas o continente africano, tão pouco conhecido dos brasileiros, muitos com antepassados vindos de lá. Daniela Moreau fez essa viagem a Timbuktu em 2002, para pesquisar o povo malinês. Lá acabou descobrindo um grande escritor, o filósofo Amadou Hampâté Bâ (1901-1991), que, em Amkoullel, o Menino Fula, constrói um maravilhoso relato sobre sua infância e adolescência, livro que, na edição brasileira, ganha imagens de Fortier dos lugares descritos por Hampâté Bâ.

Por essa época, a historiadora, que cedeu algumas dessas fotos para a mostra West Africa:Word, Symbol, Song, em cartaz na British Library de Londres, ainda não tivera acesso aos cartões-postais de Fortier, mas já fora plantada a semente para formar essa coleção, que nenhum acervo público do mundo possui em sua versão completa. Daniela está a caminho de ser esse banco de dados. Há 20 anos, tem feito viagens pelo continente africano e fundou em São Paulo a Casa das Áfricas, que coordena, dirigindo ainda o Acervo África, programa que tem disponível para pesquisa uma coleção de mais de 1.500 peças da cultura africana.

Com a emergência dos websites, a historiadora conseguiu comprar cartões-postais de Fortier que se encontram espalhados pelo mundo. Após 12 anos de pesquisa, a obra do fotógrafo está, segundo ela, “recomposta em sua quase integridade”. Publicadas entre 1900 e 1923, as séries de Fortier não haviam sido identificadas. Esse passou a ser o objetivo de Daniela Moreau, não por nostalgia, esclarece, mas para investigar um período violento de dominação cultural e resistência das populações africanas. Seu foco é uma série de 1906 que ela considera a obra-prima do fotógrafo, a Collection Générale Fortier. São 500 cartões postais que registram suas viagens pelo interior da África do Oeste, partindo de Conakry e chegando a Timbuktu.

Nessa série, Edmond Fortier registra desde a construção de uma ferrovia na então colônia francesa da Guiné às primeiras construções de alvenaria em Bamako, além de bufões sagrados em Ségou e, naturalmente, muitas garotas de seios à mostra, pois o fotógrafo, longe de ser um etnólogo, era um esperto homem de negócios, capaz de calcular o retorno comercial de fotos que o público europeu consumia como eróticas ou, no mínimo, exóticas.

A historiadora, naturalmente, não acompanhou a lógica empresarial de Fortier. Como se disse, seu interesse nesses cartões é a evolução da história da África e da história da arte – Picasso tinha fotos de Fortier em sua coleção e já foi aventada a hipótese de que as Demoiselles d’Avignon não sejam de Avignon, mas africanas. O fotógrafo alimentava o imaginário metropolitano com legendas nos cartões-postais que editava, mas não dava muita importância para diferenças étnicas – e o autor do prefácio do livro, o historiador Paulo Fernando de Moraes Farias, mostra que ele não distinguia um mouro de um targui (singular de tuaregue). No entanto, o hoje histórico retrato de Samori Ture, líder da resistência ao colonizador francês, dispensa legendas. Fortier traduz numa única imagem o orgulho de todo um povo.

EDMOND FORTIER – VIAGEM A TIMBUKTU

Instituto Tomie Ohtake. R. Coropés, 88, tel. 3034-4673. 3ª a dom., 11h/20h. Até 17/1/2016. Grátis

VIAGEM A TIMBUKTU

Autora: Daniela Moreau

Editora: Literart (470 págs.; R$ 235)

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