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Livro discute o grande e o pequeno na arte contemporânea

Designer inglês, que já escreveu sobre os grafiteiros brasileiros, analisa em sua obra a mania gulliveriana que assola os museus

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

20 de dezembro de 2015 | 04h00

O sonho da monumentalidade na arte ganhou, nos últimos anos, a dimensão de uma alucinação gulliveriana. Artistas como os argentinos Adrián Villa Rojas e Leandro Erlich, o russo Nikolay Polissky e o holandês Theo Jansen parecem mesmo dispostos a construir um mundo em escala gigantesca onde os espectadores pareçam criaturas liliputianas – mas certamente não tão estúpidas e fúteis como os personagens da ilha de Swift. Notando a atração que os humanos têm pelo infinitamente grande e o absurdamente pequeno, o designer inglês Tristan Manco decidiu reunir num livro, Máxima Arte/Mínima Arte (Edições Sesc), os artistas que ele julga de maior relevância nas duas escalas, a monumental e infinitesimal.

Fez isso, ao que parece, sem julgamento de valor, apenas movido pela curiosidade. Manco é coautor de um livro sobre a arte de rua em nosso país, Graffiti Brasil, publicado pela Thames and Hudson. Máxima Arte/Mínima Arte é sua obra mais recente. Não é propriamente um livro de ensaios, mas sua pesquisa sobre a exploração da escala na era da globalização conduz o leitor a concluir que a internet tem algo a ver com a anteriormente citada mania gulliveriana. A rede, segundo Tristan Manco, “tornou o mundo um lugar menor e mais interconectado e, tanto na máxima como na mínima arte, artistas estão adotando ferramentas futurísticas com as quais só podiam sonhar no passado”.

Ele cita como exemplo o artista e arquiteto argentino – será mesmo mania de grandeza de nossos vizinhos? – Tomás Sarraceno. Presente na Bienal de São Paulo em 2006, Sarraceno cria biosferas infláveis e flutuantes “em escala épica”. No outro extremo, o autor lembra que as miniaturas do artista norte-americano Joe Fig retomam o artesanato e a escala diminuta, reconduzindo nosso olhar para o espaço íntimo numa era “ambiciosamente grandiosa”. Esse contrapeso mostra, segundo Manco, que a arte “pode ser convincente em pequena escala”, desde os origamis sofisticados do vietnamita Nguyên Hùng Cu’òng até as cidades portáteis do chinês Yin Xiuzhen, construídas com miniaturas feitas de trapos, que cabem dentro de uma mala de viagem.

Nos três exemplos desta página, dois gulliverianos e um liliputiano, é possível notar que a criação de mundos alternativos pelos artistas são acessíveis, mas nem por isso menos apocalípticos que o real. Manco admite que as miniaturas de Thomas Doyle, que retratam realisticamente a vida no subúrbio americano, enclausurada numa redoma de vidro, pode ser tão claustrofóbica como as casas de Leandro Erlich, os objetos pantagruélicos de Lilian Bourgeat, que oprimem o espectador, reduzindo-o à condição de inseto (veja a menina com a fita métrica acima, abaixo).

O gigantismo, até porque vivemos numa sociedade do espetáculo, está ganhando. Erlich, atendendo a uma encomenda do Barbican Centre de Londres, desenvolveu há dois anos o projeto Dalston House, em que as pessoas, andando, deitando ou passeando sobre a fachada de uma casa em tamanho real, podiam se ver escalando as paredes e as janelas por meio do reflexo desse cenário num grande espelho. Interação, afinal, é a palavra mágica que os museus descobriram, transformando essas instituições em enormes parques de diversão. Se há alguma dúvida a respeito, as exposições recentes dos australianos Ron Mueck e Patricia Piccinini, que atraíram milhares de pessoas, são provas contundentes desse hedonismo.

O autor pergunta a uma outra artista australiana, Nike Savvas, autora de instalações monumentais e multicoloridas, qual a razão do sucesso de tais obras, que não são propriamente grande arte. E recebe como resposta: “As obras de grande escala focam menos na produção de objetos e dão mais ênfase à criação de ambientes de imersão e experiências sensoriais para transportar o visitante para outras dimensões”. Em outras palavras: as pessoas visitariam museus em busca de desorientação espacial e sensações baratas. 

MÁXIMA ARTE MÍNIMA ARTE

Autor: Tristan Manco

Tradução: Cristiane Yagasaki

Editora: Edições Sesc (256 págs.,R$ 109)

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