Livro de Stephen Shore será lançado neste domingo na SP-Arte

Fotógrafo é considerado um dos pioneiros da foto experimental

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

24 de agosto de 2014 | 03h00

Stephen Shore é um fotógrafo de olhar tão raro que, aos 14 anos, teve três de suas fotos compradas para o Museu de Arte Moderna de Nova York (MoMA) por um mito da fotografia, Edward Steichen (1879-1973), então curador da área na instituição. Filho da metrópole americana, nascido em 1947, ficou amigo de Andy Warhol e frequentou a Factory entre 1965 e 1967, quando ela ainda ocupava o quinto andar do número 231 da Rua 47, na Midtown Manhattan. Lá fotografou todos os tipos bizarros que circulavam em torno de Warhol, mas logo se cansou deles.

Colocou, então, os pés na estrada com duas câmeras, decidido a registrar a paisagem americana e seguir os passos de Robert Frank. O fotógrafo suíço, que ficou amigo do escritor beat Jack Kerouac (1922-1969), formatou o estilo “on the road” na história da fotografia, ao captar a paisagem texana e o americano médio em toda a sua crueza.

Ao lado de William Eggleston, Shore é considerado um dos pioneiros da foto experimental em cores e um dos grandes paisagistas americanos (vale a pena conferir no livro Uncommon Places, em que ele faz pela fotografia o que o hiperrrealista Edward Hopper fez pela pintura). Mas Shore não gostaria de ser lembrado por isso.

Assim, decidiu publicar um livro que contribuísse para a formação do olhar de neófitos. "Toda fotografia tem atributos em comum que determinam como o mundo diante da câmera se transforma numa fotografia, e também constroem a gramática visual que esclarece o significado de uma fotografia", observa Shore logo no prólogo de A Natureza da Fotografia, justificando seu livro teórico que a Cosac Naify lança neste domingo, às 17h, durante a SP-Arte Foto, no lounge do Shopping JK Iguatemi.

O livro reúne alguns dos seus fotógrafos favoritos - de Walker Evans (1903-1975), que registrou a Grande Depressão americana nos anos 1930, ao contemporâneo alemão Andreas Gursky, um grande fotógrafo de paisagem e arquitetura, como Shore. A diferença do americano para o alemão é que Shore não adota um ponto de vista privilegiado, em geral do alto, como Gursky, para captar a paisagem. Ele olha para ela como um passageiro de carona num carro - e foi assim que ele registrou, em 1972, a paisagem de Amarillo, Texas, na companhia de um amigo, encarregado de guiar o carro e levar seu equipamento (Shore odeia carregar peso e não poupa nem mesmo sua mulher).

Shore ainda fotografa, mas sua atividade principal, desde 1982, é dirigir o programa de fotografia do Bard College de Nova York, tradicional instituição onde estudaram o cineasta Arthur Penn e o pintor Roy Lichtenstein. Sua experiência didática, contudo, não fez de Shore um ensaísta eclético como Geoff Dyer. Sua relação com a fotografia é de outra ordem - e ele alerta o leitor que não pretende analisar o conteúdo das fotografias, "e sim descrever seus atributos físicos e formais". É assim que Shore coloca no livro uma foto histórica de Walker Evans feita em 1936, no Alabama, durante a Depressão.

Talvez, nesse caso, fosse conveniente que o autor explicasse ao leitor a importância desses registros como documentos da história americana e sua relação pessoal com a fotografia de Walker Evans. Aos 10 anos, em 1957, ele recebeu de presente o livro American Photographs, de Evans, originalmente publicado em 1938 e que trazia uma diagramação incomum. A sequência das fotos dispensava uma narrativa literária que a justificasse, despertando no leitor a vontade de criar um significado para ela, como se as imagens agrupadas formassem uma longa sentença escrita por um sociólogo. Shore recusa a tarefa, desafiando o leitor. A razão está clara desde a primeira imagem selecionada para o livro: a vista da janela de um hotel da pequena e deprimente cidade mineradora de Butte (Montana) feita por Robert Frank nos anos 1950. A gramática visual seria dele ou de um obturador?

Shore mostra como o enquadramento de uma foto traz embutido um sentido ideológico que conduz o olhar do observador para além das bordas do papel. Desde os primórdios da fotografia - e ele seleciona uma pictórica imagem de P.H. Emerson que documenta uma colheita de junco em 1886 -, o plano focal sempre elege um recorte do mundo que revela muito mais sobre os modelos mentais dos fotógrafos do que talvez eles desejassem.

É o caso da foto maior que ilustra esta página, da americana (descendente de alemães) Collier Schorr, que mostra um soldado alemão comendo uma maçã sobre a grama. A cena não se passa durante a 2.ª Grande Guerra e Herbert, o soldado, não é um nazista, mas um ícone da masculinidade, um jovem ator vestido de militar. Em tempo: Schorr mistura realidade e ficção, passado e presente, na fotografia, que perde seu caráter documental para ganhar o status de arte.

A NATUREZA DAS FOTOGRAFIAS

Tradução: Donaldson M. Garschagen

Editora: Cosac Naify (136 páginas, R$ 89,90)

LANÇAMENTO DO LIVRO

SP-Arte Foto. Lounge do Shopping JK Iguatemi, Avenida Presidente Juscelino Kubitschek, 2.041, 3152-6800. Domingo, às 17h, (sem a presença do autor)

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