Jairo Goldfus
Jairo Goldfus

Livro de Jairo Goldflus faz do metrô de NY um laboratório de estilo

Durante 689 dias, ele retratou 1.500 pessoas; no livro 'You Are Not Here', vemos uma seleção de 456 imagens

Maria Rita Alonso, O Estado de S. Paulo

17 Agosto 2017 | 06h00

Há dois anos, o fotógrafo Jairo Goldflus decidiu tirar um período sabático em Nova York. Para ele, seu trabalho havia entrado no modo automático. Com quase 30 anos de carreira, depois de ter fotografado modelos e celebridades para as principais revistas e grandes campanhas publicitárias, Goldflus conta que começou a achar o mundo da moda chato e repetitivo. A vontade de atuar reapareceu já nos Estados Unidos, enquanto contemplava um passageiro no assento em frente ao seu no metrô. Clique. Com a câmera do celular fez um retrato que o deixou instigado com o enquadramento, com a expressão absorta que captou, a postura, o estilo...

Começava ali uma investigação quase antropológica que durou exatos 689 dias de viagens pelo metrô, partindo da estação World Trade Center, e fotografando sempre com o mesmo quadro, o mesmo assento, do mesmo ângulo. Ao todo, retratou 1.500 pessoas. Destas, 456 podem ser vistas agora no livro You Are Not Here (Editora do Autor, R$ 160). “O corpo fala muito e entrega o que pensamos”, diz Goldflus. “No metrô, a cabeça da gente está sempre em outro lugar, no que acabou de acontecer ou no que ainda está por vir”.

Observando disfarçadamente seus fotografados (que não se deram conta dos retratos), ele conta que acabou reencontrando o prazer de fotografar. Percebeu padrões de comportamentos das pessoas em trânsito que transformou em séries, editadas no livro com a ajuda de Marcos Medeiros, que assina a direção de arte, e de André Kassu, autor dos textos. Há imagens de gente lendo, falando ao celular, bocejando, dormindo, despertando... Quase sempre fica nítido que as pessoas estão ali só de corpo presente. Daí o nome do livro.

“Era a primeira vez, em muitos anos, que eu não podia dirigir a cena. Meu papel era passivo, eu só precisava esperar”, afirma ele. Enquadrando o ambiente mais democrático da cidade, Goldflus fez de Nova York um objeto de estudo, uma espécie de laboratório de estilo. Logo percebeu que o cotidiano do metrô, assim como o da cidade, mudava de acordo com a hora do dia. Por isso, fez fotos em diferentes momentos, todos os dias da semana. As mais bizarras e surreais preferiu deixar de fora da edição. Também fugiu de imagens temáticas. Não tinha interesse em datas festivas, torcedores uniformizados em dias de partidas ou gente fantasiada, como por exemplo no Halloween. A ideia era contar uma história linear, retratando gente em sua rotina.

Não hesitou, por exemplo, em descartar a foto de uma das editoras de moda mais importantes do mundo, a inglesa Grace Coddington, da revista Vogue América. O que chega a ser irônico. Na era das redes sociais, na qual todo mundo tem a possibilidade de se expressar, ninguém mais está autorizado a dizer o que é certo ou errado vestir. Essa ditadura foi ultrapassada e a imagem de moda também busca hoje um novo significado, dando oportunidade para novas estéticas como a do street style.

“O dia a dia não é clean. As pessoas são ecléticas, abusadas, são over. Às vezes, na desarmonia, mostram-se verdadeiras e autênticas”, diz ele. Folheando o livro fica claro que a elegância não tem nada a ver com marcas chiques ou produções elaboradas. Ela anda muito mais perto da atitude, da movimentação corporal e até do estado de espírito de cada um.

“Para mim, foi um processo de libertação”, diz ele, que ficou famoso por suas fotos perfeitas e irretocáveis. Para esse livro, no entanto, as imagens foram feitas com um iPhone 6, e não contaram com nenhum tipo de manipulação digital nem uso de filtros. Tudo foi apenas convertido para o preto e branco. Além das imagens, Jairo registrou os ruídos do vagão. Uma instalação com projeções das imagens e som gravado durante suas idas e vindas está agendada para fevereiro de 2018, no MIS.

 

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