Literatura em sombras e bonecos

Pia Fraus une atores e formas animadas para encenar contos de Guimarães Rosa

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

16 de abril de 2009 | 00h00

"Você entrou na vaca, tem de ser depois", diz o diretor Beto Andretta para o ator Sidnei Caria. "Dá para tirar uma passada de barco?", pergunta Isabela Graeff. "A gente está se trombando na saída da mesa", diz Melina Menghini. Essa conversa se dá no início da semana o diretor e os seis atores da Cia. Pia Fraus - os outros são Lucas Luciano, Gisele Petty e Ronald Liano - numa discussão após um ensaio de Primeiras Rosas, que estreia hoje para o público no Teatro Popular do Sesi.Cifrado de início, o diálogo torna-se cristalino ao fim da apresentação do espetáculo baseado em quatro contos do livro Primeiras Histórias, de Guimarães Rosa (1908-1967), e realizada por quatro diferentes diretores convidados por Beto Andretta (leia ao lado), artista que celebra com esse trabalho os 25 anos de fundação da Pia Fraus. "O objetivo era compartilhar um processo de criação com outros artistas buscando com essa troca o aprimoramento estético", diz Andretta. "Só por isso já teria valido. Aprendemos muito." O projeto foi apoiado pelo Programa Municipal de Fomento ao Teatro e depois o Sesi apoiou a montagem resultante.A tal ?vaca? do diálogo é personagem do conto Sequência - ela foge para a fazenda onde nasceu - e foi esculpida em espuma por Sidnei Caria. O chão onde pisa é feito de mesas, manipuladas pelos atores, ora como obstáculo, ora como vereda. "Se tem algo em comum no trabalho de todos os diretores é a mistura entre animação e atores. Concepção geral e seleção de contos têm a assinatura de Andretta. "Escolhi histórias com elementos raramente associados à obra de Guimarães Rosa, como a visita à cidade no conto As Margens da Alegria ou a 1ª Guerra como tema em O Cavalo que Bebia Cerveja." O que o público acompanha são três histórias inteiras, entremeadas por fragmentos da perseguição do sertanejo à vaca fujona. A sintonia entre bonecos e atores tem o seu ponto alto em A Terceira Margem do Rio, no apelo da família (atores) ao retorno do pai navegador (boneco). Sonoridade e animação de objetos se harmonizam em contundente libelo contra a guerra em O Cavalo que Bebia Cerveja, e o misto de cores e sombra encanta personagem e espectador em As Margens da Alegria. ServiçoPrimeiras Rosas. 70 min. 14 anos. Teatro do Sesi (456 lug.). Av. Paulista, 1.313, 3146-7405. 5.ª a sáb., 20h; dom., 19h. R$ 10 (5.ª e 6.ª grátis). Até 5/7Os DiretoresWANDERLEY PIRAS: Diretor da Cia. da Tribo, em Primeiras Rosas encena o conto Sequência, no qual um vaqueiro persegue uma vaca fujona. Na literatura, a busca se alonga, vira obsessão. No teatro, fragmenta-se, ganha forma de entreatos. "Procurei a expressão lúdica, o jogo e a brincadeira em torno dos percalços da perseguição: momentos de respiro nesse espetáculo que é denso." Vaca, cavalo e vaqueiro são bonecos de manipulação direta.ALEXANDRE FÁVERO: O teatro de sombras é a linguagem de sua Cia. Lumbra, de Porto Alegre. "Em função da força sugestiva é técnica ideal para temas míticos, mais do que realistas." Em As Margens da Alegria,um menino viaja, conhece Brasília, mas se encanta mesmo com um peru. "Busquei o viés da perda e da relação com a morte."CARLOS LAGOEIRO: Há 22 anos esse brasileiro fundou na Holanda, onde vive, a Cia. Munganga. Em O Cavalo Que Bebia Cerveja, a vida de um estrangeiro é cercada de mistério até a descoberta de que ele cuida de um irmão deformado por um ferimento de guerra. "Atrás de alguém feio, gordo, diferente, o estrangeiro, tem dor. Fui atrás dessa dor." Duas câmeras projetam num telão em tempo real a manipulação de objetos. Assim é retratada a aldeia italiana antes, durante e depois de um bombardeio.MIGUEL VELHINHO: A Terceira Margem do Rio talvez seja o conto mais conhecido dos 21 publicados em Primeiras Histórias. Ainda assim, a recriação feita por esse diretor gaúcho radicado no Rio tem força para comover o público na forma harmoniosa como une boneco (o pai que decide viver na canoa) e atores (sua família).

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