Linha de Passe: aclamado em Paris

Pré-estreia do filme, cuja versão foi chamada de Une Famille Brésilienne, lotou a maior sala do Cinéma Balzac, na capital francesa

Andrei Netto, PARIS, O Estadao de S.Paulo

11 de março de 2009 | 00h00

Ex-concorrente à Palma de Ouro em Cannes, de onde saiu com o prêmio de melhor interpretação feminina em maio passado, o longa Linha de Passe, de Walter Salles e Daniela Thomas, voltou ontem às telas de cinema da França. Apresentado em pré-estreia no Cinéma Balzac, uma das salas mais respeitadas do circuito alternativo de Paris, Une Famille Brésilienne foi aclamado pela plateia, deslumbrada também com a presença e com as reflexões do diretor brasileiro. Em retribuição, Salles presenteou o público com o curta metragem Carta a V., produzido para o aniversário de 60 anos de Cannes e exibido até então apenas duas vezes.Com estreia no circuito comercial prevista já para o dia 18, Une Famille Brésilienne gerou filas extensas em sua primeira exibição em Paris. Em razão da procura e do grande número de reservas de ingressos - cuja verificação retardava a entrada do público -, a sessão teve início cerca de uma hora após o previsto.Instantes antes, o editor de Cultura do jornal La Croix, Jean-Claude Raspiengeas, fez uma apresentação elogiosa da carreira de Salles para um público que se mostrava aficionado pelo diretor. O jornalista definiu Linha de Passe como "um filme que deveria ter ido mais longe em Cannes". No festival realizado em maio passado, o drama foi aplaudido de pé, mas só Sandra Corveloni recebeu a Palma de Ouro, por seu desempenho como Cleusa, a mãe de quatro jovens de periferia de São Paulo. Após a apresentação, Linha de Passe voltou a ser ovacionado pelo público, formado de franceses e brasileiros. A empolgação da plateia aumentou com a chegada de Walter Salles, que participaria de um debate de cerca de uma hora. Convidado a definir seu filme, explicou: "Une Famille Brésilienne vem do desejo de voltar a falar da juventude brasileira, que Daniela e eu havíamos abordado em um primeiro projeto, Terra Estrangeira", explicou. "A inspiração do filme atual veio de histórias reais e dos desejos manifestados por essas pessoas de reescrever suas vidas. São jovens à procura de uma identidade, já que não contam com a figura paterna."A seguir, o diretor foi questionado sobre o desempenho de Sandra Corveloni, além dos de Kaique Jesus dos Santos e Vinícius de Oliveira, que desempenham, respectivamente, Reginaldo, o menino à procura do pai, e Dario, o aspirante a jogador de futebol. Os bastidores da gravação, as relações entre seus trabalhos como ficcionista e como documentarista e a realidade brasileira também foram abordados por Salles a pedido do público. "A história de Linha de Passe me interessa antes de mais nada porque eu não a vejo na TV brasileira, que é muito asséptica." Além de sua abordagem documental, Linha de Passe também foi elogiado pelas técnicas de filmagem das cenas de futebol, um dos pontos centrais do longa. "Seu domínio dessas técnicas é impressionante. Não lembro de outro filme que tenha traduzido tão bem o futebol para o cinema", derramou-se Raspiengeas.Ao término do debate, veio o presente ao público francês. Com o curta Carta a V., Salles fez uma reflexão intimista na qual homenageia a paternidade ao mesmo tempo em que se questiona sobre as chances de o cinema capturar também o imaginário do filho, Vicente, então com seis meses. O curta foi exibido em uma pequena mostra para a imprensa em Cannes, onde o diretor também havia apresentado 8944 km de Cannes, homenagem aos 60 anos do festival. A melhor maneira de compreender o presente oferecido ao público foi questionar o diretor sobre a acolhida que recebera. "Este é um público incrível, e a França é a capital do cinema", disse Salles, em conversa informal com o Estado. "Hoje, passei em frente a uma sala e havia um filme tibetano em exibição. Em nenhum outro país encontraríamos estas opções. Nos Estados Unidos, não há 10% dessa diversidade."

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