LilY Sverner/Divulgação
LilY Sverner/Divulgação

Lily Sverner mostra como renovou o surrealismo com sua fotografia

Fotógrafa de origem belga, radicada no Brasil há mais de sete décadas, abre exposição na Galeria Fass

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

30 Julho 2016 | 03h00

De Brassaï, o escritor norte-americano Henry Miller observou que estavam enganados aqueles que o viam como o “protótipo” do fotógrafo. Para Miller, Brassaï era, antes, um escritor, um pintor, antes de pensar em fotografia. O mesmo pode ser dito a respeito da fotógrafa brasileira, de origem belga, Lily Sverner, que abre, no dia 6, a exposição Para Ver Sem Pressa, na Galeria Fass. A exemplo de Brassaï, autor de um livro fundamental sobre Proust, que reflete sobre a paixão do autor francês pela fotografia, Lily Sverner é uma narradora de histórias. Teria sido uma boa jornalista, como pensou certa vez. Ou uma escritora. De qualquer forma, optou pela fotografia, como Brassaï, assinando séries hoje clássicas, como Nomes, que integra o acervo do Instituto Moreira Salles (IMS).

Esse preâmbulo é necessário porque o nome de Proust é citado pelo curador da mostra, o professor e pesquisador Rubens Fernandes Junior, para mostrar como as fotos de Lily Sverner não são simples evocações de um passado distante, mas imagens que trazem de volta sensações múltiplas, desafiando o olhar do espectador. Brassaï conta inúmeros episódios de Em Busca do Tempo Perdido em que uma foto pode solucionar tanto um mistério – é por meio dela que o leitor descobre ser Odette a Miss Sacripant – como revelar a técnica narrativa de Proust, repleta de mudanças de enquadramento e ângulos óticos. Mas, acima de tudo, são as metáforas – o “instantâneo”, a “impressão”, o “clichê”, a “revelação”, a “fixação” – que provam a afinidade do escritor com a fotografia, segundo Brassaï.

Na exposição Para Ver Sem Pressa, como sugere o título, o curador decidiu em comum acordo com a autora omitir a data e circunstâncias em que as fotos foram feitas, seguindo a trilha aberta pela narrativa proustiana, o das sensações que essas imagens provocam com seus enigmas. Memória involuntária e imagem latente, dois fenômenos que Brassaï identifica em Proust, podem ressuscitar uma sensação também nas fotos de Lily Sverner, feitas tanto de lembranças de sua infância na Bélgica, antes da barbárie nazista, como de uma construção surrealista que a memória ergueu com objetos desse passado longínquo.

“Embora tenha chegado ao Brasil com 7 anos, lembro de ter dado minha boneca, minha única posse, a um soldado, na estação do trem que nos levou para fora da Bélgica”, conta Lily, hoje com 82 anos e vivendo em Itatiba, cidade imortalizada em suas fotos por causa da histórica série Nomes, feita entre 1989 e 1991 no asilo São Vicente de Paulo, um olhar amoroso sobre a reclusão dos idosos.

Na exposição da fotógrafa, que tem desde uma homenagem ao surrealista Salvador Dalí feita em 1980 a imagens registradas na Itália em 2006, foram incluídos exemplos de séries documentais conhecidas de Lily, como Chapéus (1992) – que transforma uma fábrica de chapéus num cenário de filme noir – ou Padarias (1991), em que o banal – um pão por trás de uma vidraça quebrada – vira o excepcional numa composição de enquadramento morandiano.

Referências pictóricas são frequentes na fotografia de Lily. “Até mesmo por ter nascido na Bélgica, é natural que nomes como os dos surrealistas Delvaux e Magritte tenham inspirado algumas imagens”, observa a fotógrafa. A janela como representação alegórica da passagem para outra dimensão, tão presente nas telas de Magritte, encontra correspondência numa foto mais recente feita em Siena, em 2006. Nela, uma pintura reproduzida numa parede de tijolos agrega no mesmo espaço o real e o virtual.

O mistério é parte desse processo. “Sou fascinada pelas coisas que vão acabar”, diz, referindo-se tanto às fábricas de chapéus – seu pai era dono de uma loja em Antuérpia – como aos sentimentos num mundo cada vez mais frio e uniformizado. Vestido de Noiva (1998), uma fotomontagem que alude ao ritual, dialoga com a série que Dulce Soares, outra fotógrafa formada pela histórica escola Enfoco, está exibindo na sede do IMS em São Paulo. Lily, admiradora da colega e pioneira na publicação de livros de fotografia no Brasil, hoje expõe pouco. Criou um centro de estudos e meditação em Itatiba (o Mandala) e vive em contato com a natureza.

PARA VER SEM PRESSA

Galeria Fass. Rua Rodésia, 26, tel. 3037-7349, Vila Madalena. 3ª a 6ª, 11h/19h. Sáb., 11h/17h. Abre 6/8, 11h/15h. Até 17/9.

 

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