Lília Cabral: o desafio de refazer Divã

Atriz conta como foi reinventar na tela, em tom mais intimista, seu sucesso no palco, na peça inspirada em Martha Medeiros

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

17 de abril de 2009 | 00h00

Por mais diferentes que sejam os dois filmes, há algo de Shirley Valentine em Divã, que estreia hoje - e o curioso é que a peça de Willy Russell, filmada por Lewis Gilbert nos anos 80, ganha nova versão no palco, que também estreia hoje, com Betty Faria no papel que Pauline Collins criou em Londres e na Broadway, antes de repeti-lo no cinema (página ao lado). Lília Cabral, que estrela a versão cinematográfica da peça adaptada do texto da escritora gaúcha Martha Medeiros, também fez o papel no palco. Aliás, Lília pode ser uma estrela do teatro, cinema e TV no País, mas detesta ser assim classificada. "Estrela é coisa de Hollywood, tem de ter infra, segurança, jato e tudo o mais. O máximo que faço é uma limpezinha de pele." Assista ao trailer do filme DivãO que Shirley e Mercedes, a protagonista de Divã, têm em comum é que são mulheres casadas, de mais de 40 anos, que sentem que a vida passou por elas até terem a oportunidade de um recomeço. Shirley viaja para a Grécia, onde arranja um amante local, e não importa a descoberta que faz de que ele está sempre a postos para dar assistência a mulheres carentes como ela. Lília, casada com o personagem de José Mayer, vai para a cama com o irmão de uma aluna, mas ela também descobre que a ligação com Reynaldo Gianecchini não tem futuro, porque ele é um garotão que forjou para si uma imagem e também vai ver a vida passar, incapaz de relações (ou afetos) sinceros. Depois dele, bem Cauã Reymond. O repórter brinca - "Zé Mayer, Gianecchini e Reymond e a Mercedes ainda precisa de analista?" Lília escancara um sorriso - "Você viu?"Nem Mercedes sabe direito porque se deita naquele divã. No começo do filme de José Alvarenga Jr., ela chega a pensar que é feliz demais e talvez seja injusto ter tanta coisa. Só que, justamente, apesar do marido gostoso, dos filhos e da amiga - interpretada por Alexandra Richter, personagem fundamental da peça e do filme -, ela não se sente plena. Divã foi visto por 175 mil espectadores no teatro, um sucesso para ninguém botar defeito. Alvarenga Jr. viu a peça e percebeu seu potencial cinematográfico. Só como curiosidade, ele não tinha visto Shirley Valentine (nem viu até hoje). Mas a personagem ficou nele. Alvarenga Jr. é diretor de currículo sólido. É global - da Globo -, o que faz dele alvo preferencial do preconceito dos que desprezam filmes comerciais - mesmo como opção estética - de sucesso. Alvarenga Jr. não diz que não liga para a crítica - estaria sendo insincero -, mas em tudo o que faz ele tem resultados para apresentar.Agora mesmo, realiza o novo seriado policial da Globo, Força Tarefa, que vem se somar aos Trapalhões, Os Normais - ele também fez o filme -, A Diarista. Vale lembrar que Lewis Gilbert, que dirigiu Shirley Valentine no cinema, havia dado o salto em sua carreira nas aventuras de 007. Um pouco para se penitenciar do machismo do herói, que ajudou a impor, ele iniciou uma série de filmes de feminismo soft, dos quais Shirley e A Educação de Rita são os mais interessantes. Alvarenga Jr., eclético, já havia feito na Globo dois seriados num recorte mais feminino (feminista?) - A Justiceira e Mulher. O universo de Divã não é novo para ele, portanto. Assim como queria o texto, ele queria a atriz, porque Mercedes sem Lília Cabral seria impensável. A atriz trouxe, sem dúvida, sua bagagem - e conhecimento - do palco para (re)criar a personagem, mas Lília é a primeira a admitir que foi preciso reinventar a Mercedes."No teatro, o público ria do meu gestual, do meu jeito de falar, de forçar as palavras. Para poder falar com o público da última fila eu contava aquela história de um jeito, para que o público se divertisse. E às vezes eu carregava, para forçar a explosão do riso. O cinema me deu a liberdade de me testar em um tom menor. Alvarenga me estimulou a desenvolver uma intimidade com a personagem que eu não tinha no palco. Por isso é que digo - não estou repetindo a Mercedes, estou reinventando a Mercedes." O livro de Martha Medeiros é mais introspectivo do que a peça e o filme. "Ambos são mais engraçados", define Lília. a atriz chega a dizer que Martha é uma autora que escreve de maneira séria. "Por sério, quero dizer que ela não escreve o raso. Martha atinge uma profundidade, diz coisas que fazem pensar porque são densas na sua aparente banalidade. Mas eu confesso que sinto o deboche dela em muitas situações do livro. E isso me estimulava a buscar o meu humor."A situação no Divã não é desconhecida pela atriz. Lília faz terapia desde 1987, quando sua mãe morreu. Justamente a morte é um dos temas essenciais da peça e do filme. Lília conta que essa foi a parte mais fácil de se identificar com o texto - "Já perdi todo mundo da minha família. Mãe, pai, tios, tias, amigos importantíssimos. Fazer essas perdas no cinema não foi difícil porque tenho, infelizmente, esse know-how." A única coisa com a qual não se identifica, de jeito nenhum, é a maneira como a personagem lida com a infidelidade do marido. Mercedes consegue pensar que, sendo infiel, José Mayer não está sendo desleal. "Eu não. Desgraçado! Eu mato!", diz Lília, e ela própria ri de sua explosão. "Não consigo aceitar com essa facilidade. Não tenho essa modernidade toda, não sou chique a esse ponto."ServiçoDivã (Brasil/ 2009, 93 min.) - Comédia. Dir. José Alvarenga Jr. 14 anos. Cotação: Regular

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