Lições de Maria João Pires

Pianista encanta público carioca com interpretação do Concerto n.º 3 de Beethoven, ao lado da OSB

João Luiz Sampaio, RIO, O Estadao de S.Paulo

16 Março 2009 | 00h00

Noite de sexta-feira, Sala Cecília Meireles, Lapa. Os músicos correm, tentam se proteger do aguaceiro do começo de noite carioca; dão de cara com a rua lateral da Sala Cecília Meireles alagada, entram pela porta da frente. O maestro chega entre eles. Onde está a pianista? "Chegou antes da chuva." Beethoven, Concerto para Piano nº 3, Maria João Pires, Orquestra Sinfônica Brasileira, regência de Roberto Minczuk. Primeiro movimento... Um tema, depois o outro; da orquestra ao piano, da certeza à contradição, a magia ganha corpo. A pianista entra na cadência, sombria, recupera a delicadeza, volta ao tema; deságua em intensidade, recomeça o diálogo com a orquestra. Em instantes, o crescendo final, Beethoven nos diz algo. Segundo movimento... A pianista olha de lado para o flautista, por um instante é como se estivessem apenas os dois no palco. Curva-se em direção ao teclado, recomeça, aos poucos levanta a cabeça, os olhos fechados, joga o corpo para trás, é abraçada pelo som dos violinos. Terceiro movimento... Ao maestro, ela sorri discretamente. A música começa com o violoncelo, passa às violas, então aos violinos. Ela os acompanha com o olhar; o tom é sombrio, tudo parece em suspenso; as mãos aos poucos se levantam, tocam o piano; e ele uma vez mais parece indicar o caminho. O concerto começou, na verdade, com o Hino Nacional Brasileiro. Em São Paulo, há alguns dias, na abertura da temporada da Osesp, o público o acompanhou em silêncio; na noite de sexta, no Rio, o maestro Minczuk voltou-se para a plateia e regeu o coro. Em seguida, a Abertura Op. 101 de Mendelssohn, em que o trompete guia todo o desenvolvimento musical. Não é o que o compositor tem a oferecer de melhor, mas, de qualquer forma, a mente do público já estava um pouco mais adiante, ansiosa pela entrada no palco da pianista Maria João Pires. O que há de tão fascinante em uma pianista como Maria João? O embate entre solista e orquestra é sempre estimulante. No caso do Concerto nº 3, de Beethoven, mais ainda. Nele, o compositor ultrapassa de vez a influência de Mozart e Haydn, seus antecessores do Classicismo, para embarcar na viagem das emoções humanas que seriam a marca de sua obra e do Romantismo como um todo. O piano trabalha sem tantos ornamentos, em uma escrita que já foi definida como "muscular"; por sua vez, a orquestra abandona o papel de mera acompanhadora. O resultado é um diálogo estimulante. No primeiro movimento, a orquestra apresenta os dois temas principais; em seguida, o piano os recapitula e reinventa: à certeza do todo orquestral, contrapõe a dúvida que em música significa a fragmentação da melodia inicial. Quem vence? Nem a orquestra, nem o piano, mas, sim, o ser humano, em toda a sua complexidade. Colocado esse quadro, a presença de uma pianista como a portuguesa Maria João Pires é sempre um acontecimento. Aos 64 anos, ela tem uma carreira de sucesso consagrada desde que venceu o concurso internacional do bicentenário de Beethoven em 1970, realizado na Bélgica. Há cerca de dez anos, reduziu drasticamente suas apresentações e criou em Belgais, Portugal, um centro de ensino de música revolucionário em sua simplicidade. Fazer música, afirma a pianista, é uma atividade cotidiana. Por conta disso, em Belgais, seus alunos não apenas estudam o instrumento como cultivam a terra, convivem diariamente com a natureza, inclusive com saraus nos quais a música de Schubert ou Beethoven convive com o som da água do riacho ou do canto dos pássaros. Há três anos, irritada pela falta de apoio em Portugal, mudou-se para Salvador, o que a colocou mais próxima de nossas temporadas. O fraseado cristalino permite a Maria João a construção de uma interpretação muito clara e articulada, seja nos grandes arcos, seja nas passagens mais intimistas. À energia do primeiro movimento, ela contrapõe a delicadeza do Largo, em que Beethoven canta uma melodia triste e desconcertante. Mas Maria João parece sugerir que a tristeza em Beethoven nunca é resignada - e, neste momento de sua vida, leva sempre à necessidade de reinvenção, o que ela demonstra em meio aos contrastes entre luz e sombras que marcam o terceiro movimento. O repórter viajou a convite da orquestra Perfil Musical MOZART: O compositor tem espaço central na carreira de Maria João, que volta a ele constantemente em suas cada vez mais raras gravações. Bom exemplo disso é a integral das sonatas, gravada para o selo alemão Deutsche Grammophon. O registro dos concertos para piano do compositor com o grande maestro italiano Claudio Abbado e a Orquestra de Câmara da Europa são também essenciais para a compreensão que se tem de Mozart em nossa época. BEETHOVEN: Maria João gravou alguns discos dedicados às sonatas para piano do compositor, paradigma da literatura para piano, composta por uma rica e variada gama de sensações e emoções, além de dificuldades técnicas. Também vale a audição dos discos com as suas sonatas para piano e violino, que ela gravou ao lado de seu principal parceiro dos últimos anos, o violinista francês Augustin Dumay, outro velho conhecido das plateias brasileiras. SCHUBERT: São muitos os discos-solo dedicados ao compositor, outro dos eixos principais da carreira da pianista. Uma sugestão entre tantas e boas possibilidades é Résonances de l?Originaire, disco gravado a quatro mãos com o pianista brasileiro Ricardo Castro. CHOPIN: Os célebres noturnos de Chopin, gravados também para o selo Deutsche Grammophon, foram os grandes responsáveis por consolidar Maria João Pires entre os grandes nomes do piano de sua geração.

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