Liberdade em nome da fidelidade

Produção inglesa de As Bodas de Fígaro tira ópera de Mozart da época original para revelar toda sua genialidade

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

12 de janeiro de 2009 | 00h00

Levar ao palco uma ópera tão frequentemente encenada quanto As Bodas de Fígaro não deixa de ser um desafio. Assim como tinha acontecido com o Giulio Cesare, de Haendel, que dirigiu em Glyndebourne, David McVicar encontra soluções muito interessantes para a sua produção de Le Nozze, de 2008, no Covent Garden, lançada em DVD pelo selo Opus Art. Assim como a ópera de Haendel, que ele transferia para o Egito da época da colonização britânica, McVicar traz as suas Bodas para o início do século 19 e dá-lhe uma ambientação típica do romantismo inglês. Essa liberdade com a história contada por Beaumarchais-Da Ponte a aproxima da realidade do público inglês a que ela se destina, sem chegar, entretanto, a alterar o espírito da ópera de Mozart. E em termos plásticos e dramáticos, é de efeito bonito e convincente.Uma ideia do Giulio Cesare que McVicar retoma aqui é a de usar a criadagem como o ponto de vista muito irônico a partir do qual ver as manobras e conflitos que estão ocorrendo no mundo decaído de seus patrões. Um uso muito flexível dos recursos de palco faz com que a atividade dos criados não só sirva de ligação entre os diversos segmentos da trama, como os reflitam de maneira crítica. E a direção de atores é muito atenta à dinâmica musical, fazendo com que, muitas vezes, a movimentação dos atores no palco seja praticamente coreografada por ela. Para que isso seja possível, McVicar precisa contar não só com a interação com o regente, Antonio Pappano, mas também com o talento de um elenco muito competente, de cantores que são também bons atores. E que, além de tudo, contam com a vantagem - hoje em dia muito importante - de terem o físico do papel.Além de uma bonita voz, é encantadora a figura de Miah Persson, uma Susanna cujo atrativos tornam muito verossímil o interesse que o libertino conde Almaviva - o barítono inglês Gerald Finley, muito à vontade no papel - tem por ela. A desenvoltura em cena do baixo Erwin Schrott confere a seu Fígaro um destaque especial - em que pese, no último ato (em especial na ária "Aprite un po? quegli occhi"), ele demonstrar alguns sinais de cansaço. Quanto a Dorothea Röschmann que, no início da carreira, foi uma ótima Susanna, ela chegou a um estágio de amadurecimento vocal e físico que lhe permite criar, de modo muito convincente, a imagem da condessa - a Rosina que, em outros tempos (e em outra ópera), conquistou o conde, mas pela qual, hoje, ele perdeu o interesse.A israelense Rinat Shaham é uma revelação como Cherubino. Philip Langridge coloca todo o peso da sua experiência no desenho de um Don Basílio sinuoso, pegajoso. E, para nós, é um grato prazer rever Graciela Araya - a mezzo chilena que morou vários anos em São Paulo e, recentemente, se apresentou em Brasília - no papel muito de Marzellina. Como é costumeiro, nas produções inglesas, o elenco de apoio é muito homogêneo. Antonio Pappano que, à frente do Royal Opera House Covent Garden, tem-se revelado um dos mais completos maestros de ópera da atualidade, rege com entusiasmo e flexibilidade.

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