''Li tudo, várias vezes, de Raduan Nassar e Salinger''

Fabrício Corsaletti, escritor e poeta

, O Estadao de S.Paulo

07 de março de 2009 | 00h00

Escritor e poeta, Fabrício Corsaletti, nascido em 1978, em Santo Anastácio, interior de São Paulo, e formado em Letras pela USP, é considerado um dos grandes destaques no panorama da nova poesia brasileira. Em 2007, publicou Estudos para o Seu Corpo, que reúne seus quatro livros de poesia: Movediço; O Sobrevivente; História das Demolições e Estudos para o Seu Corpo. Também é autor de Zoo (2005), livro infantil de poesia, e King Kong e Cervejas, sua estreia na prosa, lançado no ano passado . Foi editor de poesia dos dois primeiros números da revista Ácaro.Que livro você mais relê? E qual a sua impressão das releituras?São dois: Estrela da Vida Inteira, do Manuel Bandeira, e a Temporada no Inferno, do Rimbaud. As impressões são as melhores que já pude ter com a literatura.Dê exemplo de um livro muito bom que foi injustiçado, pelo público ou pela crítica.Li uma crítica negativa de Até o Dia em Que o Cão Morreu, do Daniel Galera. Mas gostei do livro.Cite um livro que frustrou suas melhores expectativas.A Náusea, de Jean-Paul Sartre.E um livro surpreendentemente bom pelo qual você não dava nada.Pergunte ao Pó, de John Fante.A boa literatura está cheia de cenas marcantes. Cite algumas de sua antologia pessoal.Aliócha e Ivan Karamázov conversando na famosa passagem do Grande Inquisidor, em Os Irmãos Karamázov; o pai dentro da canoa em A Terceira Margem do Rio; Oliveira e Maga andando por Paris, nos primeiros capítulos do O Jogo da Amarelinha, etc.Que personagens são tão marcantes que ganham vida própria na sua imaginação de leitor?Don Anselmo, de A Casa Verde. Todos os membros da família Glass, do J.D. Salinger. O poeta Rimbaud, que na minha opinião é o maior personagem da literatura.Que livro bom lhe fez mal de tão perturbador?Palmeiras Selvagens, do Faulkner.E que livro mais o fez pensar?O Jogo da Amarelinha, do Julio Cortázar.De qual autor você leu tudo, ou quase tudo? Qual o motivo do interesse que ele desperta em você?Do Raduan Nassar e do J.D. Salinger, que escreveram pouco, li tudo várias vezes. No Raduan admiro o lirismo e o sentimento trágico. No Salinger, os personagens muito originais.Existe algum autor como o qual você jamais perderia seu tempo? Não. Isso seria preconceituoso. Teria de perder algum tempo com ele antes de resolver não perder mais.Cite um livro que foi fundamental em sua formação, mesmo que hoje você não o considere tão bom como na época em que o leu.A poesia do Mario Quintana já foi importante para mim; hoje gosto de alguns poemas.Você considera a literatura policial um gênero menor? Se a resposta for negativa, cite um livro maior do gênero. Se for positiva, diga por quê.Li pouca literatura policial. Acho que não me interesso em saber os motivos de um crime.Os livros de autoajuda são mesmo todos ruins, ou isso é puro preconceito da crítica? Caso goste de algum deles, poderia citá-lo e justificar sua preferência?Li dois ou três livros de autoajuda. Não tenho como saber se todos são ruins.Cite:a) Um livro meio chato, mas bom.Tonio Kröger, de Thomas Mann.b) Um livro que você acha que deve ser muito bom mas jamais leu.Ulisses, do James Joyce.c) Um livro difícil, mas indispensável.Os romances do Faulkner e a poesia do Cesar Vallejo são difíceis em alguns momentos, mas valem a pena.d) Um livro que começa muito bem e se perde no caminho.Memórias de Minhas Putas Tristes, do García Márquez.e) Um livro que começa mal e se encontra.Dou muito valor às primeiras páginas de um livro. Se ele começa mal, paro a leitura.f) Um livro ruim, por ser pretensiosoUm livro não é ruim por ser pretensioso, parece pretensioso por ser ruim. Todo grande livro pressupõe alguma ambição. Não acredito que Grande Sertão: Veredas tenha sido escrito desinteressadamente. De que livro você mudaria o final? Eu não mudaria o final de um livro alheio, mas o final de Memória de Elefante, do António Lobo Antunes, é bem fraco.Cite exemplos de livros assassinados pela tradução e exemplos de boas traduções.Para ficar só nas traduções de poesia, sou fã do trabalho do Paulo Henriques Britto e do Augusto de Campos, entre outros. Traduzir poesia é quase impossível, tem muita poesia mal traduzida por aí. E esses caras conseguem resultados impressionantes. A literatura contemporânea é muito criticada. Que livro (s) publicado (s) nos últimos dez anos mereceria, para você, a honraria de clássico?Budapeste, do Chico Buarque.Para que clássico brasileiro, de qualquer tempo, você escreveria um prefácio incitando a leitura?Nunca escrevi prefácio e ainda não tenho vontade de fazê-lo.Que livros (brasileiros ou estrangeiros) sempre presentes nos cânones que não têm seu voto? E um sempre ausente no qual você votaria?Não me sinto em condições de eliminar nenhum livro do cânone. Deixo a empreitada para leitores mais experientes. Quanto ao ausente, O Casamento, do Nelson Rodrigues, parece um grande livro pouco valorizado. Sobre a crítica:a) Que livro festejado pela crítica você detestou?Histórias Extraordinárias, de Edgar Allan Poe. Mas não é uma questão de detestar. Meu santo não bate com o dele.b) E de que livro demolido por críticos você gostou?Conheço muita gente que não engole o Retrato do Artista Quando Jovem Cão, do Dylan Thomas. Eu o considero um livro maravilhoso.c) Quais bons autores você só descobriu alertado pela crítica?A maioria do que li já tinha sido elogiado por algum crítico.Cite um vício literário que você considera abominável.Não gosto de autor que fica explicando a própria obra. Isso, a meu ver, é tarefa para a crítica.Que virtude mais preza na boa literatura?O lirismo.

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