Levin consegue tudo com elegância

Em apresentação memorável, Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro exibe exato senso de estilo em Campos do Jordão

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

07 de julho de 2024 | 00h00

Pela primeira vez, fora de Brasília, pôde-se ver a Sinfônica do Teatro Nacional Claudio Santoro que, desde o início do ano, tem Ira Levin como seu diretor artístico: ela se apresentou quinta-feira no Festival de Inverno de Campos do Jordão. E pôde-se constatar o salto de qualidade, em relação à fase anterior, registrado pela orquestra desde que o seu novo regente assumiu. Num programa iniciado com o classicismo austríaco, que chegou até o pós-romantismo nórdico e o nacionalismo brasileiro, evidenciou-se o exato senso de estilo com que Levin fez a orquestra abordar cada peça.Transparência de texturas, leveza de fraseado marcaram a Sinfonia Nº 82 em Dó Maior, a primeira da série parisiense de Joseph Haydn, chamada ''''o Urso'''' devido ao tom circense de seu dançante finale. O tom marcial do Vivace assai inicial, as duplas variações do Allegretto, a sutileza de orquestração do Minueto prepararam a explosão de sonoridades do Vivace em que, à elegância das cordas, respondeu a precisão das madeiras. Nesse movimento final, um dos mais surpreendentes dentro do vasto edifício sinfônico haydniano, Levin e a OSTNCS chegaram a um nível invejável de polimento na execução.Sem ser exatamente música da melhor qualidade, o Concerto em Mi Bemol de Johann Nepomuk Hummel, que começa com um corte mozartiano e se encerra com arroubos já pré-românticos, oferece ao solista possibilidades técnicas de que a jovem trompetista inglesa Alison Balsom soube tirar o mais brilhante partido. Seu legato perfeito fez cantar, no Andante, a elegíaca linha melódica de natureza vocal. Mas foi com os fogos de artifício do Rondó final que Balsom fez uma espetacular demonstração de virtuosismo.A sensual Dança de Negros com que se abriu a segunda parte constituiu uma homenagem ao centenário de Camargo Guarnieri. Mas viria, em seguida, o ponto culminante da apresentação: a Sinfonia Nº 4 de Carl Nielsen, verdadeiro hino à vontade de viver cuja estrutura, em movimentos encadeados, justifica o título de ''''Inextinguível''''. Aqui, Levin demonstrou como pôde extrair de sua orquestra as mais sutis gradações expressivas: os crescendos convulsivos e fortissimos incandescentes do Allegro, opostos a súbitos pianíssimos; o doce canto do oboé contra cordas em pizzicato, no Poco Allegretto; o diálogo dramático dos címbalos que, segundo a indicação de Nielsen, devem ser colocados em pontos extremos da orquestra. Nesta peça, em especial, pôde-se constatar a qualidade dos metais da OSNTCS, aos quais incumbem passagens de extrema complexidade.O lirismo intenso de Nimrod, a mais bela das Variações Enigma, de Elgar, foi, finalmente, um extra perfeito para colocar o ponto final num excelente concerto.

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