Lévi-Strauss 100 anos

Tratado na França como o último dos grandes intelectuais, capaz de influenciar múltiplas áreas, o antropólogo tem sua obra vista como parada incontornável na história das idéias do último século

O Estadao de S.Paulo

22 de novembro de 2008 | 00h00

O grande mestre, nascido na Bélgica, mas radicado na França, completa 100 anos no dia 28 celebrado como um dos mais importantes intelectuais do século 20. Responsável por uma revolução no estudo antropológico, fruto do contato com sociedades indígenas brasileiras nos anos 30, ele mostrou que o "pensamento selvagem", ao contrário do que o termo pode sugerir, é ativo, minucioso, sutil, composto por jogos de relações extremamente delicadas. Não por acaso, seu modelo de análise dos mitos se mantém como paradigma, a ser seguido ou negado por novos antropólogos, demonstrando uma atualidade que é discutida nesta edição."Quando voltei do Brasil, em 1939, comecei a escrever um romance, Tristes Trópicos. Creio que escrevi em torno de 30 páginas... o bastante para me convencer de que não fui feito para esse gênero de literatura", diz Lévi-Strauss sobre a gênese de seu mais célebre trabalho, em entrevista inédita concedida em 2006 ao antropólogo e documentarista Marcelo Fortaleza Flores, e que é publicada com exclusividade pelo Cultura. É de Flores também o depoimento emocionado sobre a volta, neste início de século 21, às tribos visitadas nos anos 30 por Lévi-Strauss (foto acima), durante a confecção do documentário Trópico da Saudade, recém-apresentado em Paris."E eis que o homem das longas durações se acerca de seu centésimo ano. A glória o envolve. Imagino que ele acolha seu aroma com aquele sorrisinho discreto que nele representa o ápice do entusiasmo", escreve o correspondente em Paris Gilles Lapouge, relembrando décadas de contato e conversas com o antropólogo. Apontado por Lévi-Strauss como o fundador de uma "nova escola antropológica", o brasileiro Eduardo Viveiros de Castro discute a maneira como a obra do homenageado é interpretada hoje, apontando sua relevância em tempos de crise. Tristes Trópicos é analisado por Manuela Carneiro da Cunha, professora da Universidade de Chicago e ex-aluna de Lévi-Strauss. O professor de Teoria Literária Sérgio Medeiros escolhe como objeto de reflexão História de Lince, livro em que o mestre "reviu toda sua obra e fez uma defesa contundente do método que sempre empregou para analisar os mitos".Antropóloga da Universidade de São Paulo, Lilia Moritz Schwarcz investiga as bases desse método, enquanto Leda Tenório da Motta, da PUC-SP, revê influências na formação de Lévi-Strauss. Walnice Nogueira Galvão, da USP, fala da chegada do então jovem filósofo europeu ao Brasil dos anos 30. Mariza Werneck discute o papel das artes no trabalho do antropólogo, pioneiro na defesa de uma nova relação entre o homem e o meio ambiente, como comprova o professor e escritor Mauro Leonel.

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