(Letras da praça)

Três livros de autores chineses lançados no Brasil lembram os 20 anos do massacre dos manifestantes de Tiananmen

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

20 de junho de 2009 | 00h00

Vinte anos após o massacre da Praça da Paz Celestial (Tiananmen) em Pequim, no qual centenas de manifestantes foram mortos ou feridos pelo Exército do país, três livros de escritores chineses exilados chegam às livrarias brasileiras para discutir um assunto ainda tabu na China: o episódio, ocorrido a 4 de junho de 1989 e que marcou o auge da repressão a um movimento que pedia - inutilmente, parece - a abertura política na superpotência asiática. O advérbio se justifica na medida em que a simples menção do ato de protesto está proibida nos livros, na mídia e nos sites chineses, impedindo que os mais jovens tenham acesso a informações sobre o massacre. O histórico e triste episódio é tema principal de duas obras lançadas pela editora Record - Pequim em Coma, de Ma Jian, e Lago Sem Nome, de Diane Wei Liang - e de Testemunhas da China, livro-reportagem sobre o país nos dias atuais, escrito pela jornalista Xinran e publicado pela Companhia das Letras, que editou no Brasil seus outros trabalhos.Dois desses escritores, Xinran e Mai Jian, estarão reunidos na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip), no dia 2 de julho, para debater os rumos do país que deve comandar a economia mundial no século 21. Entrevistados pelo Estado, tanto um como outro têm dúvidas sobre a possibilidade de democratização da China, dividindo esse pessimismo com Diane Wei Liang, que era estudante quando o sangue correu na Praça da Paz Celestial. "A China tem um histórico milenar de regimes autocráticos", argumenta Ma Jian, frisando que a filosofia que guia os chineses, o confucionismo, "venera a subserviência aos mais velhos e aos líderes". Seu livro, Pequim em Coma, é um pesadelo. Tem como protagonista um ativista político de Tiananmen, Dai Wei, atingido por um soldado enquanto fugia. Preso no cérebro desse manifestante em coma, o leitor embarca numa viagem infernal por seu passado, da infância durante a Revolução Cultural maoísta ao envolvimento no movimento estudantil.Há cenas chocantes em Pequim em Coma, como a de um ritual canibalístico em que uma garota, Liu Ping, de 16 anos, é morta e tem seu corpo consumido pelos habitantes de um vilarejo durante a Revolução Cultural, incentivados pelas autoridades locais e por um mito ancestral - consumir inimigos para absorver sua força. Numa crítica indisfarçável à China atual, Mai Jian chega a fazer a desesperada mãe faminta do militante em coma vender sua urina como milagrosa. "O livro não deve ser lido como uma narrativa histórica, embora eu tenha tomado parte do protesto, mas como uma metáfora do coma em que a China mergulhou após o massacre, induzido pelo governo, que força as pessoas a apagar o episódio da memória", diz o escritor. Ma Jian, a esse respeito, lembra que não há menção ao massacre nas obras escolares, na mídia chinesa ou na web, controlada pelas autoridades.A exemplo de Ma Jian, Diane Wei Liang, a autora de Lago Sem Nome participou ativamente dos protestos da Praça da Paz Celestial. Ela deixou a China logo depois, ainda em 1989, buscando primeiro refúgio no interior do país até partir para os Estados Unidos com uma bolsa de estudos. Hoje vivendo em Londres, onde também moram Ma Jian e Xinran, Diane Wei Liang fez de sua trajetória pessoal o assunto de seu livro. Filha de intelectuais "reciclados" pela Revolução Cultural num campo de trabalhos forçados, ela, hoje casada com um alemão e mãe de dois filhos, mudou de nome - o original era Wei -, nacionalidade e língua, mas conserva o idealismo romântico que a fez acreditar numa possível abertura chinesa há 20 anos. "A geração mais nova desconhece o que se passou na praça, mas está engajada em outro tipo de luta, a ambiental, o que nos dá certa esperança", diz, justificando ter escolhido um caminho diferente de seu amigo Ma Jian para falar das "contradições" da China.Diane Wei Liang escolheu a história de uma separação amorosa, a de dois estudantes engajados, para contar, em, Lago Sem Nome, como o massacre da Paz Celestial abortou não só um projeto de democratização como estimulou uma nova ordem social - ou desordem, para os mais críticos. Líderes estudantis do passado, que estiveram na praça e foram presos, hoje são prósperos empresários num país dominado pelo culto do materialismo. "A despeito da prosperidade econômica e dos avanços políticos que garantem hoje certa liberdade de ação, a China ainda parece longe da democracia", diz a escritora de livros de mistérios, como O Olho de Jade, em que uma mulher detetive, Mei Wang, circula entre proscritos, deserdados sociais e novos-ricos chineses.Longe de ficção, Xinran preferiu viajar pela China para descobrir a razão de a democracia ter sido massacrada em Tiananmen. Em seu livro, ela entrevista contrarrevolucionários, policiais e até uma mulher general em busca da verdade. Mas seria isso possível num país onde as pessoas falam com dificuldade sobre si mesmas, acuadas pela paranoia e pelo conceito de culpa por associação - em que a família é punida como seu membro infrator? "Foi justamente essa dificuldade que me levou de volta a remotos lugares da China numa viagem, antes de tudo, de autoconhecimento."

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