Letra para a melodia da selva

Nova obra de Ana Miranda explora - até de modo exagerado - a sonoridade da língua dos kaxinawas

Beatriz Resende, O Estadao de S.Paulo

13 de setembro de 2009 | 00h00

Texto peculiar este último livro de Ana Miranda: Yuxin. Abordagem apaixonada da cultura, da arte, da vida e, de forma muito especial, da música dos kaxinawa, estudada por Marlui Miranda, irmã da autora e responsável pelo CD que acompanha o livro. Baseada sobretudo nas pesquisas de J. Capistrano e Abreu e nos estudos bem mais recentes da antropóloga Betty Mindlin, de cujo Diário da Floresta Ana Miranda parte, o livro é a transcrição de sons que ocupam a floresta, retomada da musicalidade da selva, relato de vida desse povo de dialeto pano, mergulho de sensibilização na estética de um povo de especial gosto pelo desenho.

Misto de ficção e pesquisa, trabalho de campo e observação amorosa, o livro é daqueles de pegar ou largar. Pode encantar o leitor que se interesse por esses brasileiros que, ainda hoje, são em torno de 4 .500, no Acre e no Peru, povo determinado a manter sua liberdade e independência ou aborrecê-lo mortalmente, sobretudo pela estratégia de repetição - musical, encantatório - escolhida.

Cabe, pois, ao leitor, resolver despir-se ou não de suas percepções habituais antes de mergulhar na leitura, lembrando, como faz Roland Barthes, que muitas são as possibilidades da literatura: "Essa trapaça salutar, essa esquiva, esse logro magnífico que permite ouvir a língua fora do poder."

Quanto à musicalidade em que os sons diversos são transformados por Marlui Miranda, reconheço que as deformações urbanas de meus ouvidos os tornaram impossibilitados de fruí-la adequadamente, mas Marco Lucchesi, na orelha do livro, é capaz de ver, no que chama de "sonata selvagem", ecos de Bela Bartok.

Yuxin tem início em 1919, ano em que se inicia a diáspora desse povo, levados pelos seringueiros do entorno a participar do massacre dos papavós. O livro todo se organiza numa espécie de glossário, cada capítulo curto organizando-se a partir de um vocábulo, merecendo especial destaque o belo "beisiti, espelho": "O regatão fazia a magia da alma, ele prendeu a minha alma naquela folha, devia ser a minha alma, mas era beisiti! beisiti!"

As duas primeiras partes, uaninu.longe e ben wai.esposar, giram fundamentalmente em torno da vida da narradora, a jovem Yuxin, que era feliz, não é mais. A jovem é esposa de Xumani, valente e formoso, casados por amor, em oposição aos arranjos da tribo. A dedicação de um ao outro renova todos os rituais familiares de forma comovente. Mas um dia a pequena filha morre, ou é levada, ou foi transformada em alma. Como a gentil irmã que se fora antes. Mas a felicidade persiste até que Xumani, acompanhado do filho Huxu, deixa a aldeia. Daí em diante, a vida da jovem índia é esperar pelo marido, recusar qualquer outro casamento e, como Penélope à espera de Ulisses, bordar, bordar, bordar. Sobre o bordado molhado de lágrimas surgem as memórias, os relatos familiares, a vivência da floresta, a companhia dos animais.

Na terceira parte, detenamei.guerrear, a diáspora, as partidas, são o tema dominante. Finalmente, em yuxin.alma, o tom é de desfazimento, de dissolução, como se tudo fosse partindo, sofrendo transformações, viagens de borboleta.

Ana Miranda constrói, no correr do livro, uma linguagem própria, criada a partir da língua dos kaxinawas, com seu rico repertório, neologismo, arcaísmos, sonoridades inventadas em harmonia com o que foi ouvido. É nessas possibilidades altamente simbólicas que está o poder de sedução do livro.

O uso desse poder encantatório, no entanto, é excessivo, e as repetições que vão aparecendo como infindáveis levam a um esgotamento do fôlego do leitor, que, como num afogamento, precisa, vitalmente, liberar-se daquele mergulho.

Beatriz Resende, coordenadora do Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ e professora da Escola de Teatro da Unirio, é autora, entre outros, de Contemporâneos: Expressões da Literatura Brasileira no Século 21 (Casa da Palavra)

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