Les Trockaderos, engraçados, porém sérios

Campanhia apresenta hoje e amanhã, no Municipal, o segundo ato do Lago dos Cisnes, Go for Barroco e Paquita

Helena Katz, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2018 | 00h00

Travestis fazendo paródia de balé clássico. Em 1974, quando aquele grupo de homens maquiados como divas, vestidos de tutu e dançando nas pontas surgiu, em um sótão na Rua 14, em Nova York, no circuito off-off Broadway, era o tom dos shows de covers em boates gays que dominava as suas montagens. Na ocasião, o elenco ainda continha algumas bailarinas, mas logo se tornou exclusivamente masculino. O estrondoso sucesso obtido foi fazendo com que as produções se tornassem cada vez mais especializadas e, de lá para cá, o Les Ballets Trockadero de Monte Carlo já se apresentou em mais de 300 cidades, espalhadas pelo mundo. Depois de 27 anos de ausência, a cia. volta pela terceira vez à São Paulo, apresentando no Teatro Municipal, hoje e amanhã, um programa com o segundo ato do Lago dos Cisnes, Go for Barroco (trazido em 1980) e Paquita.Não somente seu nome é inspirado na tradição dos balés russos dos anos 30 e 40, como a técnica e o estilo russo de balé são a sua língua. Tony Dobrin, o diretor artístico dos Ballets Trockadero de Monte Carlo, em entrevista por telefone ao Estado, comenta que, com o tempo, foi mudando o tipo de bailarino interessado nesse tipo de trabalho.''''Sempre fomos bailarinos homens interessados em dançar o repertório clássico, mas antes todos chegavam sem familiaridade com o trabalho nas pontas. Eu mesmo entrei assim, e demorei cerca de um ano para me sentir confortável nas sapatilhas. Mas hoje, as pontas são um pré-requisito já em nossas audições.'''' Ele garante que técnica de balé é técnica de balé, seja para homem ou para mulher. ''''É como aprender tênis, onde o treinamento masculino e feminino são similares. No balé, o que muda é que nós, homens, temos um ataque mais agressivo.''''Dos 16 do elenco, que se declaram totalmente apaixonados pelo balé clássico, somente um gosta mais de dança moderna. Mas isso não estraga o clima de trabalho. ''''Fazemos 125 espetáculos por ano, o que significa que viajamos o tempo todo. Ficamos muito tempo juntos, por isso é fundamental que sintamos a sensação de que formamos uma família muito amiga.''''No início, as peças eram ''''trockaderizadas''''. Hoje, são remontagens mesmo, realizadas com todos os cuidados que cercam esse tipo de proposta, quando realizada em qualquer outra companhia que também se dedique ao repertório clássico. ''''Trazemos especialistas nas obras que remontamos, importamos bailarinos e professores de São Petersburgo para assegurar a qualidade, pois sabemos que nosso trabalho depende de um olho externo, com o frescor que não podemos ter por estarmos muito envolvidos com o que fazemos.''''Na primeira vez em que se apresentaram no Brasil, em 1978, os Trocks foram censurados pelo Teatro Municipal do Rio, que não permitiu que lá se apresentassem, por não considerá-los uma companhia de dança. Preconceitos à parte, vale esclarecer que se trata de uma proposta artística que quanto mais baletômano se é, mais dela se desfruta. Afinal, toda caricatura, para funcionar, depende do conhecimento prévio do material caricaturado.Vale atentar para o fato de que, embora faça da questão do gênero o eixo da sua estrutura de criação, nos Trocks ela não é trabalhada no seu potencial cultural nem tampouco político. Apesar disso, para Toni Dobrin, os Trocks são considerados uma boa iniciação de crianças ao balé. ''''O mais interessante, em relação ao nosso público, é que ele é parecido com o dos shows de rock, pois mistura gays, donas de casa que trazem seus maridos que detestam balé e saem adorando, depois de darem ótimas risadas, com aqueles que adoram comédia e as mais variadas gentes do teatro e da dança, por exemplo. Temos mesmo um imenso potencial educacional, que vem sendo cada vez mais e mais admirado, com o passar dos anos. A frase que nos resume é a seguinte: trata-se de um trabalho muito sério, mas é engraçado.''''Evidentemente, há algo além do engraçado em assistir bailarinos-comediantes de pernas peludas parodiando personalidades famosas do repertório do balé clássico, e também clássicos da modernidade que remontam como Merce Cunningham, Pina Bausch ou Martha Graham, reunidos no seu repertório de mais de 50 peças. Mas disso, quem dá conta é a bibliografia que vem sendo publicada no segmento denominado Estudos Culturais, muito produtivo justamente no país onde os Trocks educam, há mais de 30 anos, o seu circuito universitário.

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