''Lepra de pedra'' corrói profetas do Aleijadinho

Na base da imagem do profeta Oseias, que já perdeu o pé esquerdo, o sujeito escreveu: ''Bodas de prata, 31/1/1950''. É um exemplo de como são antigos os maus-tratos que sofrem, em Congonhas do Campo, o colossal conjunto de esculturas ao ar livre Os 12 Profetas de Pedra, do Aleijadinho.

Jotabê Medeiros, CONGONHAS, O Estadao de S.Paulo

11 de setembro de 2009 | 00h00

Nas costas do profeta Jonas, um certo Mario P. Assinou o nome e a data. No peixe que o profeta carrega, outro escreveu a canivete: ''Araujo 96''.

Nas vestes de Joel, outro cravou as iniciais J.P.G também a canivete. Os vândalos não têm noção do valor das obras que barbarizam, mas o perigo maior que ameaça os Profetas de Pedra vem da sua própria natureza.

Feitos de pedra-sabão, sofrem com a ação dos ventos, do sol, inclemente e de todo tipo de ação natural.

A birita que se acumula dentro da pedra é a ameaça invisível - ela ''explode'' progressivamente, em contato com a água da chuva, e vai ir rompendo a superfície da pedra tal qual uma catapora mortal.

O mal que acomete as imagens foi apelidado de ''lepra de pedra'', por ir decepando gradativamente as extremidades da anatomia das estátuas. O profeta Habacuc já tem o punho esquerdo destroçado. Jonas está sem os dedos da mão esquerda. Amós não tem mais os dedos da mão direita. Abdias não tem o polegar direito.

Esculpidas entre 1800 e 1805, já na fase final doa carreira de Aleijadinho, as obras têm sido objeto de diversos estudos e propostas para sua preservação, mas nenhuma foi adiante até hoje.

Já se falou na construção de um museu que os abrigaria em terreno anexo, cujo projeto seria do arquiteto português Álvaro Siza.

Também se propôs que fosse colocadas réplicas em seus lugares (como na Itália, que recolheu obras como o David, de Michelangelo, hoje na Accademia de Florença), mas a população de Congonhas rejeitou terminantemente essa sugestão. Enquanto isso, os profetas se esfarelam em praça pública.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.