Lekman e a tapeçaria do pop indie

Artesão sonoro, cantor sueco leva sons bem sacados e inéditos ao Studio SP

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

11 de junho de 2009 | 00h00

Música colorida e afável, que fala de temas prosaicos, tipo um joguinho de bingo numa sexta-feira à noite num drive-in. E títulos bem sacados, como Eu me Lembro de Cada Beijo ou Eu a Conheci Numa Passeata Contra a Guerra. Tudo cantado por um crooner que parece uma mistura de Morrissey com Chet Baker e Wander Wildner.É a música do sueco Jens Lekman, que está chegando para sua segunda turnê no País. Toca neste sábado, amanhã, no Studio SP, templo indie na Rua Augusta. Ele se faz acompanhar apenas por Viktor Sjöberg, e promete cantar "três ou quatro canções inéditas", além do repertório de seus três discos - When I Said I Wanted To Be Your Dog (2004), Oh, You?re So Silent, Jens (2005) e Night Falls over Kortedalla (2007).A primeira vez que Lekman veio ao Brasil foi para a chamada Invasão Sueca, em 2006, quando ele passou por Curitiba, Rio de Janeiro e São Paulo. No antigo Studio SP, na Vila Madalena, numa noite que repartiu com Erlend Oye (da banda Kings of Convenience), Lekman enfrentou um fog de cigarro tão denso que dava para cortar com faca. Tava lotado até o cemitério da Vila Madalena. "Eu andava de ônibus entre as cidades, um pouco temeroso. Afinal, o que esperariam? Que tipo de plateia seria? O que eu faço seria bem recebido?", lembrou o cantor, falando por telefone ao Estado na semana passada.Agora, o cidadão de Gotemburgo (que recentemente se mudou de mala e cuia para Melbourne, Austrália) não tem mais dúvida: é uma plateia bacana esta brasileira, especialmente diversificada e surpreendente. E participativa. Ele irá também a Porto Alegre e Recife. E vai comparando o Brasil com outros lugares onde tem tocado."A Austrália é um lugar tipo chato. Todo mundo vai ao show com namorado, todo mundo é straight, não tem gente sozinha, ninguém dança sozinho. Vivo em Melbourne porque é muito bonito. Na Rússia, você vê todo tipo de gente na plateia, de gente com cara de camponês a doidões pelados. Nos Estados Unidos, vejo pessoas que parecem professores universitários, sérios, de óculos, que não se movem muito ", ele conta, divertindo-se com sua generalização sociológica.Ele se dizia especialmente excitado em ir tocar em Santiago, no Chile, onde se apresenta no dia 20 no Industria Cultural. "Nunca estive lá nem na Argentina. O Chile virou uma obsessão para mim, porque cresci com pessoas daquele País que sempre me falaram muito de Santiago, e agora finalmente vou conhecer."A música de Lekman tem um sabor nostálgico, mas é ao mesmo tempo vibrante. Seu maior hit (se é que se pode dizer isso), Mapleleaves, lembra Burt Bacharach. Mas Brian Wilson, dos Beach Boys, também é uma onipresença. Ele chegou a ser eleito pela revista Elle sueca como um dos homens mais sexies do seu País, mas é o antigalã por excelência. Suas músicas, não raro, falavam de suas desventuras amorosos. Em 2001, uma namorada deu-lhe um pé no traseiro e ele ficou quase catatônico. Apoiou-se num amigo, e esse fugiu pensando que Lekman estava apaixonado por ele.Em 2003, ele acabou se tornando conhecido na Europa e nos Estados Unidos após o lançamento do EP Mapleleaves pelo selo Secretly Canadian. Depois, ele tornou célebre no mundo indie mais uma canção, Rock Dennis in Heaven, cuja história acabou sendo confundida pelos fãs com a sua própria. Ele tenta até hoje desfazer o equívoco.Lekman vem de uma cena musical que se afirmou com força há alguns anos, projetando nomes como El Perro do Mar e José Gonzalez. Mas ele julga que isso agora estagnou, não tem mais tanta novidade. "O que se ouve ainda é eco do que aconteceu há 4 ou 5 anos. Estão seguindo aquelas bandas, aquele som, só agora os jovens na Suécia estão se dando conta do que aconteceu no próprio quintal. Deu-se uma espécie de nacionalismo. Mas já é tarde, há outras coisas acontecendo. E não consigo ver nada de entusiasmante nessa cena de agora, para mim é algo que já vi muito", diz."Tem alguns samples, é uma festa dance acústica, um show bom para dançar", anuncia Lekman, que tem um estilo divertido e sofismático de definir sua presença no mundo da música. Em 2006, ele disse: "Minhas canções não são como livros, são construídas sob boa linha musical e o resto são palavras que enchem espaços. São histórias divertidas. Como um cara que conta uma história engraçada, e depois se dá conta que essa é a história de sua vida, e isso não é de fato engraçado."Agora, em 2009, sua boutade e sua disposição mudaram: "Há cinco anos, eu escrevia canções sobre coisas ruins do passado. Agora escrevo canções sobre boas coisas no futuro. A música me afeta mais do que eu afeto a música. Se eu escrevo uma canção sobre me apaixonar, eu instantaneamente me apaixono. O que é bacana."

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