Leitura de Poulenc sem resvalar no excesso

Timing seguro de Mireille Delunsch deu unidade à interpretação de Voz Humana

Lauro Machado Coelho, O Estadao de S.Paulo

17 de setembro de 2008 | 00h00

Dentre as peças menos executadas de Tchaikóvski, há muito de interessante nas quatro suítes para orquestra compostas entre 1879 e 1887. Menos equilibrada do que a nº 2 op. 53, ou do que a nº 4 Mozartiana - a mais conhecida delas -, a Suíte nº 1 em ré maior op. 43, ainda assim possui alguns achados incontestavelmente originais. E foi uma boa idéia iniciar com ela, na quinta-feira, o concerto em que John Neschling trouxe a seu público o monodrama La Voix Humaine, de Francis Poulenc. Uma execução elegante e colorida da peça de Tchaikóvski serviu de agradável preâmbulo a esse concerto.Para um melodista nato como Francis Poulenc, é um grande desafio - a que a intérprete, Mireille Delunsch, soube adaptar-se perfeitamente - não poder espraiar-se em cantilenas, ou escrever um elaborado acompanhamento sinfônico. Os segmentos do texto de Jean Cocteau são curtos, ofegantes, a todo momento interrompidos para que a mulher, que fala ao telefone, pela última vez, com o homem com quem viveu muito tempo, e que a abandonou, ouça o que ele lhe está dizendo do outro lado. A essa seqüência de farrapos de frase, o timing dramático muito seguro de Mireille Delunsch deu coesão e unidade.Para amarrar essa colcha de retalhos, Poulenc deixou-se guiar pelo texto e a rigorosa seqüência de "fases" - a das lembranças, a das mentiras, a da chantagem com a história do cachorrinho que está com saudades do dono sumido, a da revelação do suicídio frustrado - com que Cocteau articula a sua peça. Para cada uma delas, há segmentos melódicos, microárias com personalidade própria, e que são fundidos numa mesma atmosfera pesada, doentia, de lirismo amargurado. Foi muito comovente, por exemplo, a maneira como Delunsch desenvolveu o que Poulenc chamava de "pequena valsa triste no estilo de Sibelius", no momento em que ela finalmente conta ao amante que tentou se suicidar.O papel da orquestra é fundamental, porque é aos instrumentos que Poulenc delega a função de exprimir tudo o que essa Ariadne abbandonata contemporânea - cujo rochedo em Naxos foi substituído por um telefone - não pode dizer. Nesse sentido, muito bem conduzida por John Neschling, a orquestra desenhou, em torno da declamação fragmentada de Delunsch, todo o quadro dos verdadeiros sentimentos da mulher que se esforça em dar parte de forte mas, no fundo, quer pedir, quer suplicar ao amante que não a deixe, que volte para ela.Num texto como o da Voz Humana, é muito fácil resvalar para o exagero, o excesso de sentimentalismo. Que se enfatize, portanto, a sobriedade com que Mireille Delunsch conduziu a composição do papel, mostrando-o em toda a sua fragilidade, mas sem fazê-lo perder a dignidade que o insere numa nobre linhagem de personagens trágicas femininas, ao longo da história da ópera.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.