James Lisboa Escritório de Arte
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Leilão do acervo do pintor Pennacchi surpreende

Conhecido pelos afrescos e telas com temas religiosos, artista teve revalorizada e disputada sua obra sobre cerâmica

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

18 de junho de 2022 | 05h00

As cerâmicas do pintor de origem italiana Fulvio Pennacchi (1905-1992) nunca foram objetos de cobiça de colecionadores. Não por causa da qualidade, que é alta, mas porque eram peças da coleção particular de sua esposa, Filomena Matarazzo, e não estavam à venda. Com o leilão do acervo do artista comandando por James Lisboa entre os dias 6 e 9 deste mês, foram, surpreendentemente, as obras mais disputadas. 

Cerca de 75% delas foram arrematadas, segundo Lisboa, que só não conseguiu vender o lote de número 1, a casa que Pennacchi construiu em 1948 e decorou com afrescos da mais pura tradição italiana. Imóvel localizado entre as ruas Espanha e Alemanha, no Jardim Europa, e avaliado em R$ 50 milhões, seria um excelente centro cultural para preservar a memória da família italiana de pintores que se estabeleceram em São Paulo (Volpi, Ernesto de Fiori e Bonadei, entre eles), mas não foi arrematado. 

“Houve, sim, interesse de uma secretaria do Estado e de uma construtora, mas o negócio não foi concretizado”, revela o leiloeiro. “É uma pena que a comunidade italiana, cuja presença é forte em São Paulo, não tenha uma casa como essa para divulgar o que os artistas italianos deixaram como legado à cidade”. Pennacchi, antes do leilão, era um artista conhecido e respeitado pelos críticos, mas com presença discreta em coleções particulares. Ele não gostava (nem precisava) vender seu trabalho. Estava longe de alcançar o patamar do círculo de pintores do grupo Santa Helena ao qual se integrou – apenas para efeito comparativo, a menor tela de Volpi custa hoje algo em torno de R$ 1 milhão.

Pennacchi alcançou apenas um quarto desse valor pela obra mais cara leiloada, Colheita de Uva (1967), um óleo sobre tela (128 x 200 cm) arrematado pelo valor da avaliação (R$ 250 mil). Outra pintura importante de seu acervo, o óleo sobre cartão Trabalhadores (1939), teve o mesmo destino: vendida por R$ 80 mil, o mesmo preço da avaliação. Isso não aconteceu com outros óleos sobre cartão ou placa de menores dimensões, que alcançaram preços até três vezes maiores que a avaliação, caso de Circo (1972), acrílica sobre placa de pequeno formato (10 cm x 16cm) arrematada por R$ 11,7 mil (o preço base era R$ 4 mil). 

Com o mesmo tema e título, só com formato maior (50cm x 70 xm), O Circo, na versão mais antiga, de 1942, alcançou R$ 154 mil, pouco mais que a avaliação (R$ 150 mil), a mesma do autorretrato do artista com sua mulher Filomena, um afresco não assinado de 1939 que a família decidiu retirar do leilão. Paradoxalmente, Pennacchi, católico fervoroso que retratou cenas bíblicas e ficou conhecido como o pintor do santos, não conseguiu sensibilizar os compradores no leilão com sua religiosidade. Seu afresco que reproduz a Santa Ceia, de 1950, não foi vendido (avaliado em R$ 80 mil). O Milagre de Santo Antonio, afresco de 1947, igualmente deixou de ser arrematado, assim como Vida de São Francisco (1936), um óleo sobre cartão, avaliados, respectivamente, em R$ 40 mil e R$ 60 mil. 

O cromatismo de Pennacchi também interferiu no leilão – e não só a temática contou. Nos anos 1930, sua paleta era um tanto sombria. Um óleo sobre cartão que retrata a Crucificação, de 1931 (lote 117) foi oferecido por R$ 120 mil, mão não vendido, assim como outro pequeno óleo (lote 113) que mostra Jesus na Coluna (avaliado em R$ 10 mil). Quando a paleta de Pennacchi fica mais luminosa e o tema dos óleos desce à terra, tudo muda. Apesar do tema árido, Retirantes, óleo sobre placa de 1987, tem cores vivas e claras, sendo vendido por R$ 46,5 mil, acima de sua avaliação. 

Os autorretratos – e Pennacchi fez inúmeros deles em técnicas variadas – não fizeram muito sucesso. Um dos melhores, um óleo sobre cartão de 1943 (lote 176), avaliado em R$ 20 mil, não foi vendido, assim como seu autorretrato quando jovem (lote 160) e outro da época em que chegou ao Brasil (1929), lote 157. 

Em contrapartida, as cerâmicas registraram alta valorização. Um painel de cerâmica policromada com alto relevo representando a Virgem e Cristo alcançou R$ 15,5 mil. Outro painel, Bloco de Carnaval (1973), avaliado em R$ 9 mil, saiu por R$ 19,6 mil. Pennacchi, enfim, é reconhecido também pelo mercado, mesmo não atingindo o patamar de Volpi.

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