NIlton Fukuda/Estadão
NIlton Fukuda/Estadão

Leilão da coleção de arte da massa falida do Banco Santos tem raridades

Uma escultura de Brecheret, outra de Maria Martins, pinturas de Tomie Ohtake e fotografias de Cartier-Bresson estão entre os lotes mais cobiçados

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de São Paulo

13 de novembro de 2016 | 04h00

O leilão da coleção de arte da massa falida do Banco Santos, que acontece em duas etapas, dias 22 (no Hotel Unique) e 29 (online), deve agitar o mercado no fim de um ano complicado de desemprego e crise econômica. Trata-se de um leilão milionário de 214 obras, entre as 719 peças que pertenciam ao banqueiro Edemar Cid Ferreira e que vão a pregão com lances iniciais entre R$ 1.900 e R$ 1,1 milhão – algumas foram leiloadas lá fora, entre elas uma tela de Basquiat (que saiu por R$ 42 milhões numa venda realizada pela Sotheby’s de Londres).

Organizador do leilão, Aloisio Cravo acredita que as peças oferecidas vão superar em muitas vezes o lance inicial estabelecido, como a mais cara delas, o lote126, grande escultura do modernista Victor Brecheret que mostra uma vestal reclinada com um pássaro, cujo lance inicial é de R$ 1,1 milhão. “Uma obra moderna dessa magnitude aparece muito raramente no mercado”, justifica, apontando outras obras da coleção que são igualmente raras, como uma escultura de Maria Martins (lote 40) chamada Anunciação, apropriação de um tema caro aos artistas renascentistas. Lance inicial: R$ 550 mil.

O valor do lance inicial da obra de Maria Martins é exatamente a metade de Brecheret. Há várias razões, a principal delas o fato de ser uma peça de fundição póstuma, sem assinatura. Na mesma faixa está a escultura Trindade (lote 82), gigantesca peça (5 metros de altura) do contemporâneo Tunga, morto em junho, que tem lance inicial de R$ 400 mil (menos da metade de seu valor de mercado). Entre as esculturas de contemporâneos se destacam Flor do Chão (lote 63, lance inicial de R$ 320 mil), do polonês Frans Krajcberg, artista presente na Bienal de São Paulo. Outra é uma escultura do mineiro Amilcar de Castro (lote 147), com lance inicial de R$ 220 mil.

A coleção de esculturas do ex-banqueiro é bastante eclética. Vai de torsos romanos da época dos césares aos modernos (Bruno Giorgi, Emendabili), passando por peças antigas da escola Kmer. Aliás, não só o acervo de esculturas é eclético. Edemar Cid Ferreira colecionava fotografias, mapas, móveis (antigos e modernos), pinturas (até chineses contemporâneos como o realista Xue Jiye, que tem lance inicial de R$ 30 mil).

O fato de ser um acervo bastante heterogêneo pode significar um resultado positivo para os credores do Banco Santos. Vale lembrar que, quando a instituição financeira quebrou, o rombo era superior a R$ 3,2 bilhões (um terço desse valor já foi recuperado). Com uma coleção que tem de tudo, de máscaras africanas a peças chinesas, as chances de o leilão organizado por Cravo ser um sucesso são muito grandes.

É preciso, porém, garimpar. Todos gostam de Bert Stern, aquele que fotografou Marilyn Monroe nua, na cama, mas sua imagem icônica da atriz com duas rosas verdes cobrindo os seios não é vintage. É uma cópia de 1982, com tiragem de 36 exemplares (lote 73, lance inicial de R$ 3.900). Ainda na área de fotografia, cabe destacar exemplares de alguns dos maiores fotógrafos do mundo, entre eles Man Ray, Ansel Adams, Cartier-Bresson, Robert Doisneau e Richard Avedon (também fotos de Marilyn Monroe, com lances iniciais de R$ 30 mil).

Entre as pinturas de brasileiros destacadas pelo leiloeiro Aloisio Cravo estão um óleo do carioca Jorge Guinle (1947-1987), expoente da Geração 80 que, influenciado pela arte pop e a action painting, deixou uma obra hoje muito valorizada. Sua tela Sambaíba (lote 78, lance inicial de R$ 40 mil), de cores fortes e pintada no ano de sua morte, será um dos highlights do leilão. Outra pintura destacada pelo leiloeiro é a tela Menina no Sofá (lote 21, o mesmo valor do lance inicial de Guinle).

Entre os móveis da casa de Edemar Cid Ferreira se destacam uma cadeira de repouso (lote 65) projetada pelo arquiteto Oscar Niemeyer em 1940 (lance inicial de R$ 35 mil) e um armário laqueado japonês do século 19 que tem o mesmo valor.

O economista Edemar Cid Ferreira, nascido em Santos há 73 anos, teve sua falência decretada em 2005. Um ano antes, o Banco Santos era o 12.º do País, mas sua situação se deteriorou rapidamente, a ponto de seus diretores nomearem um interventor. O Banco Central encontrou indícios de crimes financeiros e, em maio de 2005, foi anunciada a liquidação do banco. O banqueiro foi preso em 2006, denunciado por lavagem de dinheiro, formação de quadrilha e gestão fraudulenta. 

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.