Legrand, 50 anos de jazz

Compositor que inventou o musical francês faz turnê por cinco cidades brasileiras

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

28 de outubro de 2008 | 00h00

Há meio século, o compositor francês Michel Legrand, hoje com 76 anos, entrou pela primeira vez num estúdio americano para gravar um disco histórico (Legrand Jazz, Polygram Records, ainda em catálogo) com um time da pesada integrado por Miles Davis, John Coltrane, Ben Webster, Bill Evans e Art Farmer. Aos 26 anos, esse aluno da lendária Nadia Boulanger conquistava a cena jazzística dos EUA seis anos antes de se tornar mundialmente famoso por colaborar com o cineasta Jacques Demy no primeiro filme totalmente cantado da história do cinema, Os Guarda-Chuvas do Amor (Les Parapluies de Cherbourg, 1964). Hoje, ainda fiel ao jazz e ao cinema, Legrand começa sua turnê por cinco cidades brasileiras (São Paulo, Brasília, Porto Alegre, Belo Horizonte e Rio), tocando e cantando ao piano standards jazzísticos e temas que lhe valeram seis indicações e três estatuetas do Oscar pelos filmes Crown, o Magnífico (1968), Houve uma Vez um Verão (1971) e Yentl (1984).Antes de viajar para o Brasil, Legrand concedeu por telefone, de Paris, uma entrevista ao Estado, garantindo a participação especial de sua mulher nos shows de São Paulo (Via Funchal) e Rio (Canecão). Harpista, Catherine Michel gravou com ele a trilha de O Mensageiro (The Go-Between), o testamento clássico de Joseph Losey. Legrand deve ainda cantar em dueto com a intérprete paulistana Patty Ascher duas de suas canções mais populares, Papa Can You Hear Me? (do filme Yentl) e Watch What Happens, de Os Guarda-Chuvas do Amor, filme-ícone da história do cinema francês, homenageado no ano passado por um cineasta da nova geração, Christopher Honoré, em Canções de Amor (Les Chansons d?Amour, 2007). Legrand não viu o filme de Honoré, tributo não só à genialidade da dupla que formou com Demy como à nouvelle-vague francesa, da qual fez parte Legrand, compositor de sete trilhas para Godard desde Uma Mulher É Uma Mulher (1961). "Estou tão envolvido com meu trabalho atual que mal sobra tempo para ver filmes", diz o músico, que tampouco mantém uma relação nostálgica com o cinema. Fez quase duas centenas de trilhas e nem se deu ao trabalho de selecionar seus temas preferidos quando a Universal francesa resolveu há três anos fazer um balanço de seu trabalho, lançando uma caixa de com quatro CDs que reúnem suas melhores músicas para o cinema (Le Cinéma de Michel Legrand, Emercy/Universal, 2005).A exemplo do indiferente Bartleby de Melville, Legrand achou melhor não mover um dedo para concretizar o projeto. "Seria uma escolha dramática e só concordei com a compilação porque me garantiram que o organizador teria autonomia para fazer a seleção". A palavra "dramática" deve-se ao ressentimento de Legrand contra alguns diretores com os quais deixou de trabalhar, a começar por Godard, que chegou a colocar nos créditos de Uma Mulher É uma Mulher (1961) que essa era a "última" trilha composta pelo músico (no filme, relançado em DVD, ainda consta a venenosa menção nos créditos). Ainda assim, o tema do filme foi incluído na caixa da Universal.Parceiro mesmo foi Jacques Demy (1931-1990), para o qual escreveu praticamente todas as trilhas de seus filmes, desde sua estréia com Lola (1960). Mesmo assim deixou de escrever para ele as músicas de Une Chambre en Ville (assinadas por Michel Colombier) porque não via jeito de fazer um musical sobre uma greve de operários num estaleiro - e ainda por cima, em que o herói era morto pela polícia durante uma manifestação. Legrand está para Demy como Nino Rota para Fellini. "Isso só acontece uma vez na vida", diz, confirmando a suspeita de que nunca mais encontrou um interlocutor a quem se sentisse fraternalmente ligado. Ele até continua a compor para musicais franceses, mas nada memorável como as canções de Os Guarda-Chuvas do Amor. Em abril deste ano mesmo estreou Disco, um filme musical dirigido por Fabien Onteniente sobre um quarentão, Didier Travolta, à voltas com um concurso de dança para pagar as férias do filho. Legrand fez a música para se "exercitar", revisitando o som das discotecas dos anos 1970. "Sinto que sou capaz de compor dentro de qualquer gênero", diz Legrand, sem ligar para as críticas negativas que o filme recebeu. De fato, essa é a característica mais marcante do músicos francês: a versatilidade. Sua história no cinema registra trilhas que recorrem tanto à sintaxe erudita (O Mensageiro) como ao jazz (Dingo, em parceria com Miles Davis) e aos musicais americanos (Les Demoiselles de Rochefort, exibido no Brasil como Duas Garotas Românticas). "Digamos que sou um compositor clássico que gosta de jazz", define Legrand, mesmo sem muito entusiasmo com o jazz contemporâneo. Se tivesse de repetir a experiência de 50 anos atrás, com o disco Legrand Jazz, que trompetista escolheria para o lugar de Miles Davis ? "Nenhum", responde. "Não há ninguém na cena atual comparável a Miles, Chet (Baker) e Dizzy (Gillespie)". Saxofonista, sim. "Ainda existe Phil Woods."Cada vez mais erudito desde que dirigiu uma elogiada versão do Réquiem de Fauré há 15 anos, Legrand concluiu na semana passada a gravação de um álbum dedicado à produção operística - a sua e a de alemão Kurt Weill, parceiro de Brecht. O álbum, Inside, vai trazer um novo registro de sua ópera-bufa Le Passe-Muraille (1997), premiada produção ( Molière francês de 1998) sobre um tímido empregado que um dia descobre ser capaz de atravessar muralhas. Ao lado dela vai estar sua versão da Ópera dos Três Vinténs, da dupla Brecht-Weill. E o maestro promete não parar por aí. "Já paguei minha dívida com Luis Eça e ainda pretendo gravar um disco em homenagem a Tom Jobim", diz, anunciando um futuro projeto de gravação no Brasil.

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