Legado dadaísta de Duchamp resiste em mostra no CCBB

'Ciclo', com obras de 14 brasileiros e estrangeiros, propõe um panorama da reciclagem do movimento na arte atual

Celso Filho, O Estado de S.Paulo

07 Setembro 2014 | 02h07

Há pouco mais de um século, Marcel Duchamp (1887-1968) aplicava pela primeira vez o conceito de ready-made. Ao equilibrar uma roda de bicicleta sobre um banquinho (em 1912), o dadaísta francês pretendia dar um novo significado a objetos do cotidiano e deixar sua crítica sarcástica ao sistema de produção artística da época. Hoje, estas obras continuam revisitadas e, por vezes, ganham formas mais elaboradas, como em armas de traficantes mexicanos que viram uma orquestra automatizada por computador.

Exemplos desses ready-mades aos moldes contemporâneos estão reunidos na mostra Ciclo, em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB) de São Paulo. Com obras de 14 artistas nacionais e internacionais, a exposição propõe um panorama da reciclagem dadaísta na arte atual. "É a ideia deste conceito aplicado ao nosso tempo, pensando as maneiras que, hoje, o artista reage a isso na sua prática", define o curador Marcello Dantas.

E o resultado são abordagens de temas além da crítica sobre a produção de arte. De uma banheira formada por giletes, por exemplo, a artista Tayeba Begum Lupi, de Bangladesh, discute relações de gênero.

O papel da mulher é abordado ainda pela portuguesa Joana Vasconcelos, que também vai expor trabalhos na mostra Made by... Feito por Brasileiros, no antigo Hospital Matarazzo. Para o CCBB, a artista traz a obra A Noiva, que lhe rendeu boas críticas na Bienal de Veneza e um veto para a possibilidade de montá-la no Palácio de Versalhes. Nela, Joana constrói um lustre de cinco metros de altura, feito com 25 mil absorventes internos femininos.

A crítica à produção industrial em larga escala e o desperdício também são desdobramentos da aplicação do conceito hoje. "Eles partem da tentativa de se pensar em fazer algo novo, sem criar mais coisas", explica Dantas.

Em uma sala, o brasileiro Daniel Senise expõe ladrilhos de paredes, feitos a partir da reciclagem de catálogos antigos de seu ateliê. O lixo também inspirou o artista espanhol Daniel Canogar. Utilizando projeções sincronizadas, ele cria imagens virtuais que interagem com celulares e outras peças de informática descartadas. "Essas obras têm uma cara de arte pública, de intervenção. Utilizam uma linguagem que nós não tínhamos disponíveis na época de Duchamp", defende Dantas.

Interativas. No sábado, 6, a exposição incorporou trabalhos de mais três artistas. Entre as obras, a escultura Gum Head convida os transeuntes em frente ao CCBB a colar gomas de mascar numa imensa cabeça que representa a face de seu criador, o escritor e artista canadense David Coupland. O prédio do centro cultural também não foi perdoado. A fachada foi coberta de câmaras de pneus entrelaçadas pelo alemão Michael Sailstorfer.

O chinês Song Dong montou uma maquete da cidade de São Paulo, formada por doces que foram servidos ao público depois da performance. Obras mais duráveis e incomíveis de Dong estão em cartaz na mostra Regenerar na Baró Galeria.

CICLO
Centro Cultural Banco do Brasil. R. Álvares Penteado, 112, tel. 3113-3651. 2ª a dom., 9 h/21 h. Fecha 3ª. Grátis. Até 27/10.

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