Labirinto de cinco sentidos à luz de Manoel de Barros

Cia. 2 do Balé da Cidade põe Meta-Sensoriais, sob direção cênica de Mariana Muniz, no espaço da cúpula do Municipal

Livia Deodato, O Estadao de S.Paulo

23 de novembro de 2007 | 00h00

O toque, a escuta, o olhar. O peso do corpo, a vontade de estar no lugar do outro, ou até mesmo de ser o outro. A busca pela transcendência dos cinco sentidos humanos é um dos pilares que sustentam a nova coreografia que a Cia. 2 do Balé da Cidade de São Paulo estréia hoje, Meta-Sensoriais, dirigida cenicamente por Mariana Muniz. O local escolhido para as cinco apresentações que mostram até quarta-feira (com exceção da segunda-feira) é bem incomum: a cúpula do Teatro Municipal.Tanto os bailarinos da companhia como Mariana vêm, há algum tempo, estudando os princípios da eutonia, prática criada e desenvolvida pela alemã Gerda Alexander nos anos 40, que promove a consciência corporal e visa a harmonizar o tônus muscular - sua relação com os ossos, com a pele, com o sangue. ''''Acho que toda essa pesquisa tem tudo a ver, inclusive, com a cúpula do Municipal, onde toda a estrutura está exposta. A idéia do espetáculo e o local de apresentação, portanto, casam muito bem'''', diz Mariana, que justamente hoje vai se formar, após três anos de estudos, no curso técnico da Associação Brasileira de Eutonia.O processo de montagem de Meta-Sensoriais foi guiado por um poema do mato-grossense Manoel de Barros, contido na obra Livro Sobre Nada (Record), que foi apresentado a Mariana pelo bailarino Raymundo Costa, um dos sete integrantes da Cia. 2. A primeira estrofe, de imensa potência, diz assim: ''''Prefiro as máquinas que não servem para funcionar/Quando cheias de areia, de formiga e musgo/Elas podem um dia milagrar flores/(os objetos sem função têm muito apego pelo abandono).'''' ''''Esse poema me emocionou muito e acabou estabelecendo uma conexão entre o início e o fim dessa jornada, ainda que não apresente uma trama narrativa'''', revela a diretora.Uma figura solitária é quem recebe o público no início do espetáculo e tenta reverter esse quadro de nítido abandono. Ela sugere uma troca de experiências sensoriais a começar pelo simples toque, que ao longo do espetáculo será transformado em movimentos mais acelerados que beiram a agressão - qualquer semelhança com a realidade não é mera coincidência. ''''Num determinado momento, todos os bailarinos irão se encontrar e a dança vai nascer a partir da pressão, como se um quisesse entrar dentro do outro. É o que eu chamo de incorporação mútua.''''O espaço vai funcionar como um labirinto: dividido em meia dúzia de ''''nichos'''' rodeados por cadeiras, a platéia acompanha dentro de cada um deles o desenrolar de uma cena. Os próprios bailarinos serão os responsáveis pela condução dos espectadores de um ''''nicho'''' a outro, munidos de pequenas lanternas.A Cia. 2, formada em 1999 por bailarinos com mais de 40 anos que buscam através de novos estímulos sempre se reinventarem e compartilharem com o público suas inquietações, estará com a agenda cheia durante todo o próximo ano, ao lado do Balé da Cidade de São Paulo. O motivo são os 40 anos da companhia que nasceu como clássica e que desde 1974 desafia o olhar contemporâneo com coreografias ousadas.Serviço Meta-Sensoriais. Teatro Municipal. Praça Ramos de Azevedo, s/n.º, Centro, 3222-8698. 6.ª, sáb., 3.ª e 4.ª, 21 h; dom., 20 h. R$ 10. Até 28/11

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