Kraftwerk vê tecnologia como ''medicina social''

Ralf Hütter, líder do grupo alemão que vem para festival com o Radiohead, fala ao Estado e diz que instrumentos eletrônicos não têm limitações dos tradicionais

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

05 Março 2009 | 00h00

A fissura é pelos ingleses do Radiohead, mas tem muita gente que só vai à Chácara do Jockey, no dia 22, para reverenciar um quarteto de alemães grisalhos de gravatas vermelhas. Trata-se do grupo Kraftwerk, pioneiro da música eletrônica, atração internacional do festival Just a Fest - os brasileiros do Los Hermanos completam o line up. Leia especial sobre festival no site Álbuns do grupo, como Autobahn (1974), influenciaram profundamente astros como David Bowie e Brian Eno, o produtor Giorgio Moroder e DJs como Derrick May e Afrika Bambaataa, e ajudaram a gerar a disco music, o hip-hop e a dance music. Ou seja: quase toda a música moderna. O Kraftwerk já veio ao Brasil em 1998 e 2004. O fundador do grupo, Ralf Hütter, que criou o conceito e a mística do grupo no lendário estúdio Kling Klang de Dusseldorf (quartel-general do Kraftwerk), falou ontem ao Estado por telefone. Suas entrevistas são raras. Em 1998, o grupo estava havia 18 anos sem tocar. O que você lembra das outras apresentações no Brasil? Do sol. Agora mesmo está muito cinza e frio aqui na Alemanha. Me lembro da última vez no Rio, estava um calor infernal e nós tocávamos de paletó e gravata numa tenda. Quase derreti. Estamos indo para tocar na mesma noite do Radiohead, um bom grupo. Já estivemos juntos num palco anos atrás, na Costa Oeste americana. Estamos ansiosos por repartir a noite com eles de novo. Como nas ficções de George Orwell e Philip K. Dick, vocês viram o futuro com sua música, enxergando uma distopia, um mundo desumanizado. Como você disse, trata-se de uma visão do futuro. Mas que parte de uma leitura da realidade. A proposta era a de criar música contemporânea com instrumentos eletrônicos, usando máquinas para gerar sons automáticos e sequências de batidas para criar uma energia física, mas também espiritual, mental. O instrumento eletrônico não tem as limitações dos antigos instrumentos. É como a pintura, você só tem de criar suas visões. A imagem também é muito forte em seu conceito. Os vídeos se integram à música. E suas imagens lembram muito as primeiras vanguardas do século, artistas como o russo Malevich e o holandês Mondrian. É uma referência forte. A construção das ideias das primeiras vanguardas visuais têm a ver com o nosso conceito do Minimum Maximum. As pinturas são como notas musicais, compondo melodias alimentadas por elementos básicos. É assim que eu vejo também o funcionamento social dos computadores. A música trata de harmonia e equilíbrio, e é isso também que anuncia o futuro. Nós tentamos trabalhar a tecnologia de uma forma construtiva, como uma medicina social. Você sabe, há uma crise econômica em curso. Fala-se que uma nova realidade social emergirá. Acredita nisso? A crise econômica mundial não é um fato novo. Desde os anos 60 já se anunciava, e o mundo caminhava para um ambiente de tecnologia soft, com busca de fontes alternativas de energia. Os banqueiros e as corporações foram no sentido contrário. Nós temos de fazer o "wake-up call", o chamado de despertar, para que a humanidade acorde e pare com a devastação da natureza, especialmente em países como o seu. O Kraftwerk foi criado por você e por Florian Schneider, que saiu do grupo. Sendo um grupo conceitual, a quem pertence o conceito? Todo artista tem sua visão própria. Nós trabalhamos anos juntos repartindo nossa visão com técnicos, engenheiros, artistas visuais, cineastas. Mas ele se foi. Sendo um artista e em plena criação, eu sigo em frente. É o que chamo de liberdade. Nos anos 1970, vocês raramente excursionavam e eram reclusos. Agora, fazem bastante turnês. Antes, não fazíamos muitos shows porque a tecnologia que usávamos para fazer os sons era complexa e nem sempre funcionava ao vivo. Tínhamos de usar tapes. Então, paramos por um tempo. Aí, veio a tecnologia digital. Com ela, podemos compor, criar novas imagens, novas formas de arte. A improvisação é parte fundamental do processo, porque a música vem de todo lugar, da vida cotidiana, do barulho das ruas, do meio ambiente. Não há uma fórmula, é preciso estar aberto.

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