Alex Silva
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Kohei Nawa traz sua 'Espuma' para a Japan House

Um dos mais cultuados artistas contemporâneos japoneses monta em São Paulo a instalação que exibiu na Trienal de Aichi em 2013

Antonio Gonçalves Filho, O Estado de S. Paulo

16 de setembro de 2017 | 06h00

O artista japonês Kohei Nawa, aos 42 anos, já ostenta um invejável currículo com passagem pelos principais museus internacionais – incluindo na lista o Metropolitan de Nova York, que tem em sua coleção uma obra sua da série Beads (Gotas), um cervo coberto por esferas transparentes que parecem bolhas. Destaque na Trienal de Aichi de 2013, ele traz a São Paulo, na próxima semana, a instalação Espuma, que está sendo montada na Japan House e poderá ser vista pelo público visitante a partir do dia 22. Vale esperar para ver. Desde a sua inauguração, a Japan House tem sido o ponto cultural mais concorrido da Avenida Paulista: por lá passaram 352 mil pessoas nos últimos três meses.

Kohei Nawa é um criador multidisciplinar com vocação futurista. Trabalha com arquitetura, escultura e até moda (ele anda invariavelmente vestido com roupas da grife Comme des Garçons). Em Espuma, Nawa recorre mais uma vez ao conceito do “pixcell’, neologismo cunhado por ele com a junção das palavras pixel e cell. Pixel, como se sabe, é a menor unidade de uma imagem digital. Cell é a palavra inglesa para célula. Cobrir o corpo de objetos ou animais empalhados como o cervo do Metropolitan com esferas transparentes que se assemelham a bolhas é o que faz Nawa, redefinindo-os e alterando a percepção do público sobre a natureza animal.

Ele diz que, ao ativar uma relação interativa entre o espectador e sua obra, acaba criando um sistema de representação metafórico em que convivem a alta tecnologia e a natureza, recuperando, de certa forma, a relação harmônica que tinham os artistas criadores do período Edo – eles conciliavam saber artesanal, técnica e sensibilidade, produzindo obras-primas que não mais seriam encontradas no período Meiji.

“Com o advento do computador, o ser humano desenvolveu muito a inteligência, mas a questão da sensibilidade foi negligenciada”, observa o artista, explicando que elegeu o cervo como um dos animais de sua fauna tecnológica, “porque no xintoísmo ele é tido como um mensageiro usado pelos deuses, fazendo a ponte entre o mundo espiritual e terreno”.

Isso não significa que, sendo japonês, Kohei Nawa não divida os mesmos valores cultivados por artistas contemporâneos ocidentais. Ele estudou em Londres e revela que sofreu grande influência do filósofo, educador e fundador da antroposofia, o austríaco Rudolf Steiner (1861-1925). “A ciência espiritual de Steiner coloca o homem como um ser capaz de reconhecer uma realidade suprassensível, algo que foi desprezado com o impacto da modernidade após a Revolução Industrial.”

Por admitir que essa relação com a literatura e a arte romântica do século 19 foi forte em sua formação acadêmica, Kohei Nawa diz mesmo que sua instalação Espuma equivale a um passeio de um “wanderer’ na floresta, aquela figura mítica da cultura alemã que caminha sem destino e reflete simultaneamente sobre a existência. “Gostaria que minha obra reativasse o que está no nosso DNA e foi reprimido”, diz ele. Mas não por nostalgia da cultura arcaica. O animismo, o xintoísmo e a filosofia zen, afirma, “podem muito bem conviver com a alta tecnologia.” Isso é o que pretende mostrar a sua Espuma.

Na Trienal de Aichi, em 2013, essa instalação era quatro vezes maior do que a que vai ocupar a Japan House a partir da próxima semana. E mais escura, acrescenta o artista. Com aparência de nuvem, Espuma resulta de uma combinação química de soluções (detergente, glicerina, água). A mistura faz crescer essa nuvem em volume, de uma maneira descontrolada, como a divisão celular de um corpo em desequilíbrio, mas a sensação que tem o espectador é de suavidade, como se estivesse caminhando entre as nuvens.

Essa é, claro, uma imagem que remete aos filmes de ficção científica. Kohei Nawa revela ser um aficionado do gênero, aguardando ansiosamente a estreia da sequência de Blade Runner (Blade Runner 2049), no dia 5 de outubro. Ele, que cria esculturas em 3D, replicando a figura humana, acha que ainda vai demorar para vermos um replicante andando pelas ruas. Convidado por produtores franceses para assinar os cenários de uma ópera com “androides”, ele recusou a oferta e o projeto foi cancelado. Kohei Nawa é, sim, um bom artista, mas está longe de ser um demiurgo.

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