Katyn toca em feridas de guerra

Wajda homenageia o pai e perturba Berlim ao falar de massacre na Polônia

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

15 Fevereiro 2008 | 00h00

Na quinta-feira, o italiano Francesco Rosi veio receber seu Urso de Ouro especial de carreira, aproveitando para passar um recado. Existem hoje em dia, em todo o mundo, denúncias e escândalos que poderiam alimentar um cinema mais político do que aquele que ele praticava nos anos 60 e 70, sua grande fase, o que não há é interesse de produtores e distribuidores em patrocinar esses filmes. Ontem pela manhã, foi a vez de outro mestre do cinema político, o polonês Andrzej Wajda, vir mostrar, fora de concurso, Katyn. O filme parece a negação do que disse Rosi, mas, na verdade, corrobora a preocupação do cineasta de clássicos como O Bandido Giuliano e O Caso Mattei face aos rumos do cinema político. Wajda sempre quis contar a história de Katyn. No começo dos anos 40, cerca de 22 mil oficiais militares e intelectuais foram mortos pelo Exército Vermelho na floresta de Katyn. O crime, durante muito tempo, foi atribuído aos nazistas, mas na verdade foi perpetrado por Stalin, que já preparava o avanço soviético sobre a Polônia, no fim da 2ª guerra. ''''Esta história sempre me interessou de maneira particular porque meu pai foi um dos oficiais mortos em Katyn'''', contou o diretor. Daí que não foi apenas um filme que ele fez. ''''Foi uma experiência muito dolorosa que fiz para exorcizar uma tragédia que se abateu sobre minha família, quando eu ainda era muito pequeno.'''' Foi difícil levantar os recursos, na Polônia como no exterior. ''''Países como a França não deixavam de estar implicados'''', lembra Wajda. Agora que ele finalmente conseguiu concretizar seu objetivo, a preocupação do cineasta é evitar que seu filme seja utilizado politicamente, na Rússia ou em qualquer outra parte. ''''Existem políticos russos interessados em vincular o lançamento à data de aniversário de Stalin, para criticá-lo. Este filme é uma experiência muito íntima. Não quero servir como massa de manobra.'''' Katyn evoca o pacto soviético/nazista que foi assinado às vésperas da guerra e mediante o qual os alemães puderam lançar a blitzkrieg, guerra-relâmpago, na Polônia. Na abertura de Katyn, uma multidão tenta atravessar uma ponte. O grupo vem enxotado pelos nazistas. Do outro lado da ponte, correm outras pessoas em sentido contrário, dizendo que o Exército Vermelho também invadiu o país.'''' Aquela ponte, com um povo esmagado em ambas as extremidades, vira metáfora da tragédia polonesa na 2ª Guerra. Andrzej Wajda conseguiu. Ele prestou a homenagem que queria a seu pai e seus camaradas e também lançou uma bomba em Berlim que deve repercutir muito além do festival. O próprio chanceler da Alemanha assistiu à sessão oficial de ontem. O que Wajda está deixando claro é que, mais de 50 anos depois do fim da guerra e quase 20 depois da queda do Muro, ainda existem histórias a ser reescritas. Seu filme é clássico, pode ter um certo look de televisão, mas é uma peça importante, mesmo que o cineasta já esteja sendo acusado de praticar um anticomunismo rasteiro. Os milhares de mortos de Katyn, de qualquer maneira, agora não são apenas uma evidência histórica que Moscou tentou negar, quanto pôde. Existe toda uma documentação, na própria Rússia, que não deixa dúvida sobre as implicações do caso como parte de uma estratégia para dominar a Polônia. Sai a política, entra o glamour. Natalie Portman e Scarlet Johansson vieram mostrar A Outra Garota Bolena (The Other Boleyn Girl), centrado na história de Mary Bolena, irmã de Ana. A história consagrou a trajetória de Ana dos Mil Dias, mas a rainha decapitada pelo marido, o rei Henrique VIII, teve uma irmã que foi a primeira a passar pela cama do monarca, de quem teve um filho bastardo. Eric Bana faz Henrique VIII e o que ele mais ouviu na coletiva é que é um homem digno de inveja, por ser amado (no filme) por duas das mulheres mais desejadas do mundo. The Other Boleyn Girl termina com um letreiro que informa que o medo do rei de não deixar um herdeiro não se concretizou, pois a filha que ele teve com Ana Bolena virou a poderosa Elizabeth, cujos anos dourados o cinema lembra no filme que estreou ontem na cidade. The Other Boleyn Girl é obra de um estreante, Justin Chadwick, que viu todos aqueles novelões (O Leão no Inverno, Ana dos Mil Dias) que mostram que famílias reais não são muito diferentes das outras. Traições, adultérios, todo tipo de arranjos - é um lavar de roupa suja que não acaba mais. O festival terminou. Ainda teremos hoje a exibição, fora de concurso, de Be Kind Rewind, de Michel Gondry, mas a atenção está voltada para a cerimônia de entrega do Urso de Ouro para o melhor filme. Qual será a escolha do diretor Costa-Gavras, que preside o júri internacional da Berlinale de 2008? Os quadros de cotações dos críticos consagram dois filmes - Sangue Negro, de Paul Thomas Anderson, e Happy-Go-Lucky, de Mike Leigh. O filme de Anderson é melhor, mas parece uma escolha um tanto óbvia. O de Mike Leigh é simpático, mas seria um exagero atribuir-lhe o Urso de Ouro. O ator de Anderson (Daniel Day-Lewis) e a atriz de Leigh (Sally Rawlins) são os candidatos preferidos aos prêmios de interpretação, mas ele também parece uma escolha óbvia. Se o júri quisesse ousar - e acertar - bastaria premiar o filme mexicano Lake Tahoe, de Fernando Eimbcke. A expectativa final diz respeito às chances do Brasil. Tropa de Elite leva alguma coisa? Daqui a pouco, o suspense acaba.

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