Kate, Penn e a política dos discursos

Vencedores de melhor atriz e ator destacaram a determinação e a covardia de quem se nega a reconhecer os direitos civis

Ubiratan Brasil, O Estadao de S.Paulo

24 de fevereiro de 2009 | 00h00

De uma lado, uma aliviada Kate Winslet, finalmente premiada com um Oscar, pregando contra uma provável simpatia pelo nazismo, afeição que teria sido criada no público por sua personagem em O Leitor. De outro, um afável Sean Penn carregando a estatueta por sua interpretação em Milk - A Voz da Igualdade e pregando pela igualdade de direitos civis para os homossexuais. Coerentes em suas carreiras, Kate e Penn defenderam suas convicções.Depois de brincar que passara o domingo ensaiando diante do espelho a expressão que faria caso não ganhasse novamente um Oscar, a atriz defendeu a própria determinação. "Sempre achei difícil, mesmo quando menina, que um sonho pudesse se tornar realidade. Mas, da mesma forma que eu ensaiava um discurso de agradecimento segurando um vasilhame de xampu como se fosse um Oscar, eu acreditava na minha determinação. Por isso, me sinto agora como uma heroína que surpreendeu."Mais cético em relação a sonhos, Penn foi incisivo contra o pensamento ainda arraigado na cultura americana sobre a condição subalterna dos homossexuais. "Trata-se da demonstração de uma extrema covardia, um temor de que a igualdade nos direitos civis possa se tornar um problema", afirmou. "É como se os homossexuais fossem sub-humanos."O ator comentou ainda sobre a possibilidade de o presidente Barack Obama contornar o problema. "Sabemos que ele ainda não tomou uma posição oficial sobre essa questão. Gostaria de acreditar que essa seja uma posição política, momentânea, que não será mantida no futuro. Sei que vai levar tempo, pois há outras questões mais urgentes, como o combate à fome. Mas esse dia vai chegar e espero que seja em breve."Assim como Penn não se importa com o impacto provocado por suas declarações, Kate Winslet, em um nível mais prosaico, também dá de ombros à crítica da imprensa inglesa, inconformada com o agradecimento sempre choroso da atriz. "Realmente, estou pouco me importando. É lamentável que meu país não se sinta orgulhoso pela minha carreira, como fazem os americanos."Provocada sobre a declaração de que não pretende mais fazer cenas de nudez no cinema, Kate pensou muito até escolher Susan Sarandon como sua sucessora preferida para a missão. "Tem de ser uma mulher realmente controvertida.''Controverso como Mickey Rourke, a quem Sean Penn dedicou palavras carinhosas. Amigos há cerca de 25 anos, Rourke tem, no entender de Penn, um raro talento poético para interpretar. "Assisti quase chorando seu trabalho em O Lutador", disse o ator, para quem o amigo é um exemplo. "O retorno pode ser algo engraçado, mas duvido que alguém não tenha sentido o gosto bom de um recomeço. Afinal, a vida é dura."

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