Karin Lambrecht faz ''teatro do céu'' em nova instalação

A gaúcha expõe densa interpretação visual das anotações de Albert Camus

Camila Molina, O Estadao de S.Paulo

23 de junho de 2008 | 00h00

Em agosto de 1949, o escritor Albert Camus esteve em Porto Alegre e a frase ''La lumière est belle'' (a luz é bela) foi uma das concisas anotações que ele fez sobre a cidade gaúcha. Dessa citação e da passagem do escritor por Porto Alegre, durante viagem pelo Brasil, se valeu a artista Karin Lambrecht para criar a bela e impactante instalação que exibe, a partir de amanhã, na Galeria Nara Roesler - que também inaugura mostra de Marcelo Silveira. ''Camus está no trabalho com todo o seu sentimento de melancolia'', diz Karin, nascida em Porto Alegre, que usou as anotações do autor de O Estrangeiro para conceber uma mostra intimista e ao mesmo tempo densa, porque é como se estivéssemos em uma espécie de ''teatro do céu'' (frase que está em alemão, quase velada, em uma das pinturas dessa exposição) - ou ''diante da dualidade existencial e conceitual de uma obra de arte'', como escreve o crítico Paulo Reis.Karin faz nos planos de sua instalação, formada por pinturas (telas com camadas de tinta e de tecidos), desenhos e estruturas, uma metáfora de ligação entre o céu e o corpo. ''O divino não está do outro lado, deveria estar perto de nós'', diz a artista, que já criou entre 1997 e 2002 uma série visceral a partir da simbologia religiosa do abate do cordeiro ou que apresentou no ano passado, no MAC-Ibirapuera, obra em que toda uma sala negra era iluminada por área com folhas de ouro, o dourado que nas pinturas pré-renascentistas era a cor do sagrado firmamento. Mesmo assim, para ela, o principal é a ''relação com o corpo'' e, por isso, aparecem escritas nas suas obras tanto ''corpo santo'' quanto ''terra santa''.Já que a luz é a raiz da pintura, neste atual ''teatro do céu'' de Karin é a cor azul - em tons de cobalto e ultramar - que vai pontuando todos os trabalhos da instalação. Ao mesmo tempo, a condensação de todos os elementos se faz pela presença da forma da cruz, seja rabiscada nas telas ou colocada no chão, em estrutura de madeira. Ao centro, uma cavidade no formato de uma cama de solteiro - o quarto íntimo de Camus. Na cor azul. Serviço Karin Lambrecht e Marcelo Silveira. Galeria Nara Roesler. Av. Europa, 655, 3063-2344. 2.ª a 6.ª, 10h às 19h; sáb., 11h às 15h. Até 19/7. Abertura amanhã

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