Justiça para o pequeno bandido de Plínio Marcos

Querô - Uma Reportagem Maldita, dirigida por Marco Rodrigues, põe o dedo na ferida aberta em vários países: a da numerosa população de crianças abandonadas

Mariangela Alves de Lima, O Estadao de S.Paulo

13 de março de 2009 | 00h00

A consciência infeliz reconhece a dor do mundo e justifica, por meio desse saber, a repartição igualitária dos males. Sofrem pobres e ricos, sãos e doentes, homens e mulheres, virtuosos e transgressores. Desse modo, a existência é garantia de sofrimento. Pois é exatamente essa a perspectiva filosófica combatida por artistas e pensadores cujo propósito é agir, por meio da representação artística ou da luta política, para afastar da experiência concreta dos homens aquela espécie de sofrimento que pode ser evitada. Quem examinar com olho clínico os escritos de Plínio Marcos encontrará um trânsito ambíguo entre duas maneiras diversas de enfrentar a tragicidade. Suas personagens, ou pelo menos a maioria delas, sofrem não apenas as privações resultantes da pobreza e da marginalidade (variáveis associadas por ele em quase todas as obras), mas também feridas psíquicas que poderiam golpear seres humanos em qualquer estrato social.Há uma estratégia na ficção desse autor singular no panorama ideológico binário dos anos 60 e 70 do século passado e, se prestamos atenção nas intervenções dos narradores nas tramas dramáticas, veremos que se trata de uma articulação consciente para que seja possível entrever no sofredor vitimizado pela sociedade, ainda que seja como potência irrealizada, a dimensão maior da aspiração ética. Na sua obra, a solidariedade impossível em um mundo mau é o horizonte interior inatingível, mas, ainda assim, concebível para os que nunca a experimentaram.A adaptação do romance Uma Reportagem Maldita (Querô) para o teatro organiza de forma um tanto simplista duas intenções de representação. A voz predominante é a do moleque Querô, mas há a seu lado o observador que testemunha o determinismo social ao confessar a impotência para fazer qualquer coisa. Enquanto rememora os episódios da infância na orfandade e da adolescência entre bandidos, o rapazinho menciona fatos comuns aos meninos que vivem na rua: "Só me tratei de favor. Comi de esmola, dormi de esmola. E isso não presta. Me senti jogado fora." Além do que pode ser testemunhado pelo jornalista que o escuta, contudo, há um contracanto de autopiedade e nostalgia que se manifesta raramente em palavras e é simbolizado pela figura da mãe morta. Para essa aspiração de bondade, pureza e afeto retribuído, que irrompe nos momentos de mais intenso sofrimento, não há linguagem e é preciso, do ponto de vista cênico, sugerir por meio da negação.No espetáculo dirigido por Marco Antonio Rodrigues, a ordem social que produz e explora esses pequenos bandidos é enfeitada para compensar a simplicidade da adaptação. Prostitutas, fregueses e malandros se amalgamam em uma imagem coral revestida com a sedução estética do grotesco. Abre o espetáculo a imagem de bordel idealizado, com alguns traços emprestados dos antigos cabarés onde personagens irreais e nada sedutoras funcionam como quadro pitoresco para ambientar o conflito entre a mãe do menino e a cafetina. Trata-se, enfim, de um nascimento cercado por música e máscaras falsamente libidinosas, uma espécie de mito de origem análogo à cândida representação do presépio.Dessa imagem primordial, evocada nos delírios febris do protagonista, se desprende um menino irado, ferido e sujo como aqueles que povoam os cantos desta e de outras cidades. A força esmagadora da engrenagem social que o espetáculo estiliza e eleva à condição de alegoria é reforçada pelo contraste de uma representação singular de Querô. Só o menino é verdadeiramente um indivíduo e as personagens cruéis do seu mundinho nos parecem mais fantasmagorias do que perigos reais. Não há duvida de que o espetáculo reforça o verismo do protagonista recorrendo às informações oferecidas pela numerosa população de crianças abandonadas do entorno da casa de espetáculos no centro de São Paulo. Podemos ignorar os meandros do banditismo, mas o menino Querô é nosso conhecido. Embora representado por quatro elencos diferentes, fazendo parte de um experimento educacional, o arcabouço visível da concepção pode servir a diferentes atores. O fato é que nesta encenação a função exemplar e o mecanismo analógico, dois instrumentos para aferroar a inteligência do público, que o grupo Folias D?Arte maneja com destreza, subordinam-se a um protagonista desenhado pelo dramaturgo para incitar o terror e despertar a piedade. Há modos de produção da infelicidade coletiva que é possível explicar e combater, mas nada redime o mal feito às crianças e é essa alma russa que o Folias D?Arte identifica e respeita ao levar para o palco o pequeno, feroz e tristíssimo bandido de Plínio Marcos. ServiçoGalpão do Folias. R. Ana Cintra, 213, 3361-2223. 5.ª a sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 30. Até 26/4

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