Juscelino, um herói brasileiro no ar

Diretor Zelito Viana fala de seu filme Bela Noite para Voar, que tece ficção sobre a presidência do político mineiro

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

21 de março de 2009 | 00h00

Tudo começou em 2002, quando o produtor Nei Sroulevich propôs a seu amigo, o diretor Zelito Viana, um filme sobre o ex-presidente Juscelino Kubitschek. "Não fiquei tentado porque a vida de JK é muito grande e o cinema brasileiro não tem dinheiro para contá-la. Pampulha, Brasília, a indústria naval, é preciso muita verba para reconstituir tudo isso de forma apropriada na tela. Mas eu cheguei a fazer uma pesquisa e, num determinado, pensei que talvez fosse interessante realizar um filme sobre os três últimos dias da vida de Juscelino, em 1976", lembra Zelito.Esse filme nunca foi feito porque Nei Sroulevich morreu - "Na minha casa, foi lá que ele se sentiu mal", lembra o diretor - e também porque Zelito descobriu o livro de Pedro Rogério Moreira, Bela Noite para Voar, que tece uma ficção em torno de fatos da presidência de Juscelino. Os militares andavam alvoroçados com o presidente, acusando-o de ligações com o comunismo, via Jango Goulart, e também de corrupção, embora por trás de tudo talvez estivesse a crise de Juscelino com o Fundo Monetário Internacional, que o tornou suspeito aos olhos de Washington. Sucederam-se as tentativas de golpe. Bela Noite para Voar ficcionaliza uma tentativa de sabotagem do avião presidencial, quando Juscelino voa do Rio a São Paulo, para se encontrar com o então governador Jânio Quadros, e para Belo Horizonte e outro encontro mais prazeroso, com a Princesa, sua amante. José de Abreu e Mariana Ximenes interpretam os papéis (e Cássio Scarpin faz um Jânio hilário, tropeçando nas próprias pernas). Mariana é linda, mas seria injusto elogiar Mariana somente por sua beleza. "Ela é uma atriz séria, aplicada", define o diretor. O repórter acrescenta que nunca viu Zé de Abreu tão bem nos últimos tempos. O ator supera aqui sua tendência a insistir no estereótipo do gaúcho autoritário, que marca, por exemplo, o Major de O Menino da Porteira, em cartaz nos cinemas. O assunto foi parar no blog do repórter e o próprio Zé de Abreu deixou um comentário, no qual diz, entre outras coisas, que Zelito não dirige os atores. Agora é o diretor que fala - "Dirijo mais do que ele pensa, mas é bom que o ator se sinta livre para criar, como Juscelino, no filme, quer ser livre para voar."Na concepção do diretor, o presidente é um herói brasileiro. Ousado, comprometido com a modernidade, sedutor, Juscelino e seu governo representaram a transformação. Ele não apenas construiu Brasília como durante seu governo os ventos da mudança viram nascer a bossa nova e o cinema novo. A trilha, por sinal, é um regalo, com músicas da bossa nova e até Nat King Cole - Fascination - para marcar a personagem da Princesa. Os direitos saíram caro? "Menos do que se pensa. Às vezes, a gente nem tenta, com medo do preço. Fiz como o Juscelino. Ousei, e deu para pagar." Zelito Viana não é seduzido apenas por ?seu? presidente. Carlos Lacerda, interpretado pelo filho do diretor, Marcos Palmeira, é outro personagem importante. "Quando se fala em JK é difícil não cair também em Carlos Lacerda, que foi seu oponente mais duro", explica o diretor. "Lacerda foi um grande reacionário, mas foi também um líder civil e eu acho muito bonita a forma como o retratamos, mostrando sua relação com a mulher e a forma como dona Letícia exerce sua influência política sobre o marido." No filme, ela é interpretada por Júlia Lemmertz.Zelito assume que seu filme, rodado em 2004, é despretensioso e, por isso, lhe agrada o adjetivo ?simpático?, aplicado ao trabalho. No longo período em que Bela Noite para Voar esteve parado, os profissionais da Casablanca volta e meia retomavam os efeitos e eles estão entre os melhores do cinema brasileiro recente. Mas o diretor admite que as cenas de ação poderiam ser melhores. Seu próximo projeto será um infanto-juvenil, adaptado do livro Bisabia Bisabel, de Ana Maria Miranda. Outro filme despretensioso? "Não, até porque o livro é muito complexo, sobre uma garota que concentra em si a neta e a bisavó. Pretendo fazê-lo como musical. Na verdade, é um projeto bem pretensioso, que espero fazer bem", ele conclui. ServiçoBela Noite para Voar. (Brasil/2006, 87 min.) - Drama. Direção Zelito Viana. 12 anos. Cotação: Regular

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