''Júri não tem nada a ver com diplomacia'', diz Isabelle

Presidente desta edição diz que cinema deve ser humanista e ali ninguém está para julgar, mas para amar

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

14 de maio de 2009 | 00h00

Foi a coletiva do júri mais chocha dos últimos anos aqui em Cannes, principalmente se considerarmos a extensão dos talentos reunidos para cercar a presidência da 62ª edição do maior evento de cinema do mundo. Madame la Présidente é Mademoiselle Isabelle Huppert - "uma atriz francesa pode ter 100 anos, mas será sempre senhorita", disse ao repórter, anos atrás, ninguém menos do que Jeanne Moreau - e com ela participam dessa jornada atrizes como Asia Argento, Robin Wright Penn e Shou Qi, além de diretores como James Gray e Nuri Bilge Ceylan, mais o escritor e roteirista Hanif Kureishi.Cinco mulheres, incluindo a presidente, quatro homens. Mas Isabelle não tem paciência para feminismos de pacotilha. Para ela, o número não conta nada, da mesma forma como não existe um cinema ?feminino? em oposição a outro ?masculino?. O cinema não tem sexo, ela afirma. O cinema que defende também não é político, embora ela entenda a declaração do presidente do júri no ano passado, Sean Penn, quando colocou a edição de 2008 sob o signo da política. "Ele é norte-americano", desculpa Isabelle. Para ela, o cinema deve ser humanista, e uma escolha estética. "Não estamos aqui para julgar, mas para amar", diz a senhora presidente.Sua personalidade é forte e a imprensa francesa conjectura se Isabelle vai ser autoritária ou manipuladora. Claude Chabrol, com quem ela trabalhou várias vezes, aposta que será ?persuasiva?. O júri teria coragem de ir contra a presidente?, perguntou Henri Béhar, que animava o debate. "Eu sou capaz de ir contra mim mesma", garantiu Isabelle. Hanif Kureishi talvez tenha resumido o dilema do júri, de qualquer júri, da forma mais sucinta - "A ideia de um prêmio só é interessante para quem ganha." A coletiva parece um tanto burocrática. Mas a presença de Isabelle Huppert garante, antecipadamente, o glamour do tapete vermelho. Karl Lagerfeld, John Galliano e Marc Jacobs criaram modelos exclusivos para ela usar. Sua preferência é pelo cinema de autor, mas se engana quem acha que ela vai usar sua influência para premiar um de seus favoritos, o austríaco Michael Haneke, que participa da competição. O assunto, de qualquer maneira, foi evitado na coletiva. Teria sido interessante ver a reação da presidente. Isabelle disse que presidir um júri não tem nada a ver com diplomacia. "Isso aqui não é o Ministério do Exterior", provocou.Como curiosidade, a revista Madame pediu a Isabelle que fizesse uma lista de grandes filmes - Notorious, O Intendente Sansho, O Eclipse, A Princesa e o Plebeu, A Marca da Maldade e Amores Brutos foram seus favoritos. Mas ela acrescentou dois diretores à lista - Charles Chaplin, por todos os seus filmes, e Stanley Kubrick, por todos "e mais um pouco".

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