Júri ignora experimentação de linguagem

Radicalismo de A Canção de Baal, de Helena Ignez, foi lembrado apenas pela crítica

Luiz Carlos Merten, GRAMADO, O Estadao de S.Paulo

17 de agosto de 2009 | 00h00

Foram 20 anos de lutas para concluir Corumbiara. O diretor Vincent Carelli subiu ao palco para recebeu seu prêmio visivelmente emocionado. Em seu discurso de agradecimento, primeiro pelo troféu de direção - dividido com Paulo Nascimento, de Em Teu Nome - e, depois, sozinho, pelo de melhor filme, ele ressaltou a importância de Corumbiara estar sendo premiado num foro como Gramado, e não em um gueto, algo como um festival de filmes etnográficos, por exemplo. Carelli lembrou que iniciou seu filme com o propósito de reunir provas para condenar na justiça os responsáveis por um massacre de índios em Rondônia, nos anos 1980. As provas foram encontradas, mas os responsáveis não foram a julgamento e permanecem impunes. Carelli admite sua decepção. Durante anos, ele se desligou do projeto do filme, mas percebeu que só o cinema lhe permitiria, não a vingança, mas uma revanche. Ele fez Corumbiara,um documentário na primeira pessoa - por mais significativa que seja a contribuição de outros personagens e indigenistas. Leia texto de Uri Blankfeld, jurado do ?Estado?, sobre a premiação em GramadoCorumbiara é um filme forte e um vencedor digno, por mais que se pudesse preferir a experimentação radical de Canção de Baal, de Helena Ignez, livremente adaptado da primeira peça de Bertolt Brecht (e que o dramaturgo reescreveu sucessivas vezes, até os anos 1950). É mais do que se pode dizer do júri internacional, que pegou carona na consagração do filme em Berlim e superpremiou A Testa Asustada, da peruana Claudia Llosa, em detrimento da produção uruguaia Gigante, de Adrián Biniez. No formato curtas, o melhor de todos, o gaúcho A Invasão do Alegrete, de Diego Müller, também não ficou na ponta da preferência do júri oficial (nem do de estudantes, nem do público).A seleção de Gramado privilegiou uma vertente intimista, fazendo dialogar filmes como o brasileiro Corpos Celestes, de Marcos Jorge e Fernando Severo, com o argentino Lluvia, de Paula Hernández, e o uruguaio Gigante, de Biniez, todos ficções. Outra vertente, mais política, atravessa Corumbiara e outro documentário, La Proxima Estación, de Fernando Solanas, em que a privatização da malha férrea argentina permite discutir desde a repressão das ditaduras militares no Prata até a globalização, e a ficção brasileira Em Teu Nome, sobre a guerrilha urbana por volta de 1970. A premiação do filme gaúcho foi excessiva, malgrado o esforço de uma produção empenhada em reconstituir uma dolorosa história real por meio de filmagens em quatro países e três continentes (Brasil, Chile, Argélia e França). Uma terceira vertente mescla as duas anteriores (A Teta Asustada) e uma quarta celebra a experimentação - mas o júri oficial, ao contrário da crítica, não se deixou seduzir pelo radicalismo de linguagem, e nem pelo que também é a estética política visceral de Canção de Baal.

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.