Jovens filmam o submundo da luta livre no Rio

Dias de Luta, de Eduardo Brand e Gilson Val, será exibido no Festival do Rio

Roberta Pennafort, O Estadao de S.Paulo

07 de setembro de 2014 | 00h00

Sobre a laje de uma pequena comunidade pobre do subúrbio carioca, um grupo de jovens se reúne quase diariamente. O interesse não é por drogas ou armas. Eles querem é participar das aulas de luta. Alguns serão desviados da criminalidade pelo esporte; poucos terão a chance de se tornarem grandes campeões - o que não faz com que eles esmoreçam. O cotidiano desses e de outros lutadores (em todos os sentidos da palavra) foi registrado no documentário Dias de luta, que será exibido em breve no Festival do Rio.Feito por jovens (Eduardo Brand, de 29 anos, é o diretor e Gilson Val, de 27, divide com ele a produção) e da também jovem produtora Local B, o filme foi incluído na mostra Expectativa, voltada a promessas do cinema. Conta histórias de rapazes que encaram a luta de formas diferentes. Para uns, é uma forma de levar dinheiro para casa (uma vitória rende de R$ 50 a R$ 400). Outros dedicam até oito horas de seu dia ao treinamento pela paixão pelo vale-tudo e o desejo de, quem sabe, chegar onde seus ídolos chegaram.O ponto de partida para o documentário foi o professor Cezar Casquinha. Lutador desde os três anos e professor há três décadas, Casquinha (que foi por 15 anos viciado em cocaína e conseguiu botar a vida de volta nos trilhos) agora passa o que aprendeu para crianças e adolescentes pobres. É um modelo para a garotada e seus alunos também se tornam exemplos.A idéia de Eduardo Brand e Gilson Val nasceu da curiosidade dos dois, amigos de faculdade (formaram-se em Publicidade), com relação ao mundo underground de luta no Rio. Para entender como ele funciona, visitaram favelas, acompanharam aulas, filmaram lutas. "A gente se surpreendeu", conta Val. "Nossa idéia era de que eram arruaceiros. Percebemos que eles aprendem a disciplinar a violência deles e a seu redor através do esporte. São caras que acabam se tornando um outro referencial na favela que não o do bandido armado." Nas imagens, vemos torneios nem sempre bem organizadas; platéias animadas ao redor dos ringues, gritando os nomes de seus competidores preferidos; lutadores que se dividem entre o trabalho (muitos são seguranças) e o esporte e superam as dificuldades para alcançar o sucesso. "Às vezes eu vejo o cara treinando fraco e digo: ?O que é isso? Parece que não almoçou!? E aí ele chega sem graça e diz: ?Eu não almocei mesmo...?", conta Casquinha no filme. "Não é como o cara da zona sul que acorda às 10 horas e já tem a vitamina pronta. As pessoas lutam no sufoco, são mais aguerridos".

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