José Renato apita o jogo no Arena

Ele volta à casa que fundou, com texto de Vianinha no qual futebol é tema central

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

27 de novembro de 2008 | 00h00

Fechado desde março de 2007 para reformas, o histórico Arena - atualmente administrado pela Funarte - reabre hoje suas portas com uma montagem de Chapetuba Futebol Clube, peça de Oduvaldo Vianna Filho, o Vianinha, que estreou na casa em 1959. Na direção da remontagem o fundador do Arena, José Renato, à frente de um grupo de 12 atores selecionados entre 742 inscritos para o projeto. Além do espetáculo, o grupo realizará leituras dramáticas de outros dois textos de Vianinha, Papa Highirte e Rasga Coração.No dia 19 de novembro de 1954, José Renato abriu pela primeira vez as portas do Arena para mostrar à imprensa o palco que tinha uma arquitetura cênica se não inovadora - o formato circular é milenar -, novidade no Brasil da época. O aperfeiçoamento de um estilo de interpretação adequado ao formato viria aos poucos, assim como a dramaturgia que iria colocar o operário em cena. Pode parecer que aos 82 anos José Renato repete com essa montagem uma faceta do Arena: a direção e formação de jovens inexperientes na montagem do texto de Vianinha. Não é bem assim."Quando Chapetuba estreou, a equipe estava muito entrosada", conta. "Black-Tie não saía nunca de cartaz, sucesso, e aproveitei então para fazer um estágio na França, com o diretor Jean Villar. O Boal ficou ensaiando Chapetuba, ele dirigiu o espetáculo." Além de ter tido um tempo prolongado de preparação, Boal contou com um elenco - Vianinha, Milton Gonçalves e Flavio Migliaccio entre os atores - talentoso e afinado.Quem se acomoda agora nas arquibancadas forradas de novo do Arena não vai encontrar uma reprodução do espetáculo de 1959. De saída, se depara com o cenário realista assinado por Serroni: as mesinhas da pensão onde os jogadores de um time da segunda divisão do interior estão alojados. E vai se envolver com conflitos que dão conta de um importante momento do futebol brasileiro, a passagem do romantismo para o chamado profissionalismo. Trocando em miúdos, sai o jogador que sua a camisa em defesa do time de seu coração, e do de sua torcida, pelo jogador mercadoria, manipulado por empresários, obcecado pela valorização de seu passe, pressionado pelos patrocinadores."Escolhi essa peça porque as idéias defendidas estão válidas até hoje", diz José Renato. "Queria provocar uma reflexão que fosse pertinente ao elenco e ao público contemporâneo, nesse tempo em que novamente se discute reforma agrária e educação, dois problemas vitais para o desenvolvimento do País. Não queria fazer um espetáculo que simplesmente trouxesse à tona a memória do Arena."A trama de Chapetuba se passa na véspera e no dia de uma partida decisiva, a final do campeonato que pode levar o time da segunda para a primeira divisão. O grande conflito reside na ação dos cartolas e poderosos ligados aos dois times que tentam comprar resultados. A pressão psicológica sobre os jogadores engendra embates individualizados, uma vez que a tensão acirra as diferenças. Bem urdida, a dramaturgia de Vianinha leva o espectador a virar ?chapetuba desde criancinha? e a torcer tanto quanto os jogadores pela vitória. Depois de um intervalo, o cenário muda e o público acompanha, do vestiário, os minutos finais do jogo."O talento de Vianinha está em tratar questões sociais do ponto de vista humano. Essa peça tem personagens muito bem construídos, profundos, intensos, verdadeiros. Os diálogos entre Cafuné (Fernando Prata) e Maranhão (Fábio Pinheiro) são perfeitos no contraponto entre ingenuidade e sinceridade versus dúvida e desconfiança. Todos os embates são muito bons." Chapetuba nunca mais foi encenada profissionalmente. Mais um bom motivo para ver. ServiçoChapetuba F.C. Teatro de Arena Eugênio Kusnet (110 lug.). R. Teodoro Baima, 94, 3256-9463. 5.ª a sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 10. Até 13/2. Estréia hoje para convidados

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