Jornalista sai após atrito com Sarkozy

Patrick Poivre d''Arvor é demitido após 21 anos em telejornal

Taissa Stivanin, Paris, O Estadao de S.Paulo

16 de junho de 2008 | 00h00

''Madame, monsieur, bonsoir.'' A partir de julho, o bordão mais popular do telejornalismo francês estará fora do ar. Patrick Poivre d''Arvor, de 62 anos, apresentador do telejornal das 20 horas da TF1, o canal mais popular e de maior audiência do país, deixa a poltrona após 21 anos. Não para cuidar de ''novos projetos ou da vida pessoal''. PPDA, como é conhecido na França, foi afastado pela direção do canal, que deu a ele duas alternativas: repensar a linha editorial dos produtos da emissora, politicamente inofensivos, ou procurar um novo emprego. Ele será substituído por Laurence Ferrari, de 41 anos, jornalista em ascensão e ex-TF1.Durante uma semana na França, os encontros do G8, a crise alimentar e o terremoto na China viraram assuntos secundários. Até mesmo o tradicional Le Monde pôs na capa o afastamento do apresentador. Por quê? Oficialmente, apesar da TF1 ainda não se ter pronunciado sobre o assunto, a saída de PPDA é culpa da queda de audiência e da necessidade de ''uma nova cara'' para o telejornal.Mas, nos bastidores, a versão é outra. A mudança seria do agrado do presidente francês Nicolas Sarkozy, amigo pessoal de Martin Bouygues, dono da emissora e padrinho do seu filho. Recapitulando: no dia 20 de junho de 2007, o jornalista recebe Sarkozy, recém-eleito, nos estúdios da TF1, para sua primeira entrevista ao vivo. Quase 12 milhões viram o programa, um fenômeno de audiência. No ar, PPDA pede ao presidente que explique seu comportamento estranho na conferência do G-8, dez dias antes, quando parecia estar bêbado depois de um encontro com o presidente russo, Vladimir Putin. Pego de surpresa, na ocasião Sarkozy garantiu não ter bebido uma gota de álcool no encontro.O presidente nunca teria esquecido a saia-justa. Além de Poivre d''Arvor, Robert Namias, diretor de informação da TF1, também será substituído. Segundo informa o jornal Le Figaro, o cargo será de Jean Claude Dassier, outro amigo pessoal do presidente francês.PPDA não economizou alfinetadas. ''Na minha carreira, recebi esse adjetivo, insolente, da boca de alguns presidentes. A credibilidade de um jornalista passa pela independência, e espero continuar independente.'' Na quinta-feira, enviou à agência France Presse um comunicado, dizendo que soube da decisão da TF1 pelos jornais e que a direção o afastou sem dar uma explicação séria. Ele também criticou a ''brutalidade'' do anúncio, dizendo que esperava um pouco mais de ''elegância''.O porta-voz do UMP, partido do presidente, Dominique Paillé, disse à revista Nouvel Observateur que Sarkozy nunca se envolveu nesse assunto. Para o professor de ciências políticas da Universidade Paris 2, e diretor do Instituto de Pesquisa e de Estudos de Comunicação, Francis Balle, ''a mídia francesa tem um hábito irritante: acredita que é tão poderosa na formação da opinião pública que se imagina o tempo todo alvo de pressão por parte do governo''.

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