RAFAEL ARBEX|ESTADÃO
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O artista Jorge Macchi torna visíveis os paradoxos

Argentino exibe suas recentes criações em mostra inaugurada na Galeria Luisa Strina

Camila Molina, O Estado de S. Paulo

05 de junho de 2016 | 03h00

Mesmo que avesso a classificações, o argentino Jorge Macchi considera que o paradoxo é uma constante “visível” em suas obras. Aqui (2016), por exemplo, é uma pesada cruz de aço que marca e registra as coordenadas da localização exata da Galeria Luisa Strina no mapa – mas a peça é a materialização de algo “etéreo”, abstrato. Outra contradição, ainda, é o fato de a escultura ser uma criação específica para uma galeria de arte, “onde, supostamente, obras são vendidas” – e se Aqui for adquirida por um colecionador ou por uma instituição, terá de ser refeita. “A pessoa compra uma demarcação, mas terá de adaptá-la”, diz Jorge Macchi. “Seria o extremo do site specific”, brinca.

Nascido em 1963, Macchi, apesar de ser um consagrado artista contemporâneo no cenário mundial, acaba de realizar somente agora a primeira grande antologia de seus trabalhos em Buenos Aires, sua cidade natal. “Foi muito forte, uma surpresa, porque encontrei muitas reações do público e me dei conta de quantos códigos compartilhamos”, conta o argentino sobre a elogiada mostra Perspectiva, encerrada esta semana no Museu de Arte Latino-Americana (Malba). Já em São Paulo, onde inaugurou na última quarta-feira, 1.º, a exposição História Natural, ele exibe oito obras, suas mais recentes criações – a maioria, deste ano.

“Para mim, é importante que as relações entre os trabalhos ocorram de uma maneira subterrânea”, afirma Jorge Macchi sobre suas mostras. “Gostaria de ser percebido como um criador de imagens e gostaria que elas despertassem ou provocassem ideias”, define.

Assim como a escultura Aqui, a série Diáspora também reforça o tema do mercado de arte – nela, o argentino pegou um quebra-cabeças de 48 partes, imprimiu a grade do jogo, e em cada página colocou apenas 1 peça. “Nesta galeria, há 5 dessas colagens e vou distribuir as restantes pelas outras galerias em que trabalho, em diferentes lados do mundo”, explica. “É muito difícil que esse quebra-cabeça volte a se juntar; a diáspora é uma expansão, como um Big Bang, e isso tem um toque melancólico, é como perceber o primeiro passo de uma perda”, conclui.

Entretanto, como “o melhor a se fazer pela arte contemporânea é manter a sua complexidade”, diz Jorge Macchi, as possibilidades de leitura de suas obras e de sua mostra parecem intermináveis e vão se desdobrando por distintos caminhos, o que é uma das grandes qualidades do trabalho desse artista argentino.

Da entrada da Galeria Luisa Strina, o espectador vê apenas a escultura Aqui, uma das peças da série Diáspora, e uma parede falsa (dessas usadas em montagens de exposições), instalada, obliquamente, quase que no meio da sala. Branco, o painel parece também funcionar como um dispositivo de demarcação – do outro lado dele, surpreendentemente, abre-se um novo território em História Natural. A parede, na verdade, integra a instalação Projeção (2012/16), uma das mais impactantes da individual de Macchi em São Paulo.

A obra representa, mais uma vez, a materialização de algo intangível – no caso, da luz. De um “projetor” de concreto, abrigado no teto, saem 58 cabos de aço em direção ao painel branco, como se fossem os fachos luminosos. Como diz o artista, interessa o “ponto sensorial, físico” de “atração e repulsão” presente no trabalho – ao mesmo tempo em que a parede recebe a projeção violenta dos raios de aço, são eles que “retêm sua caída”. “Aqui estamos diante da presença de um equilíbrio aparentemente estável”, diz.

Mais ainda, vale destacar o grande óleo sobre tela Eingang (2015) e a obra História Natural, que, além de dar origem ao título da mostra, concatena questões como a materialização da sombra e um tema histórico da arte, a vanitas.

JORGE MACCHI - HISTÓRIA NATURAL

Galeria Luisa Strina. Rua Padre João Manuel, 755, Cerqueira César, tel. 3088-2471. 2ª a 6ª, 10h/19h; sáb., 10h/17h. Até 16/7

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