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Joia de Lina Bo Bardi tem versão reeditada

Colar de águas-marinhas foi roubado da Casa de Vidro há exatos 30 anos; instituto busca financiamento para expor acervo dos Bardi

Giovana Romani, O Estado de S. Paulo

07 de agosto de 2016 | 03h00

A casa da arquiteta italiana Lina Bo Bardi, no bairro do Morumbi, na zona sul de São Paulo, não tem janelas. Até porque não precisa delas. É pelas paredes de vidro que a luz entra iluminando toda a obra de Lina: da estrutura modernista do imóvel a peças de mobiliário – tudo projetado por ela. Fincada em um terreno de 7 mil m², a Casa de Vidro foi erguida em 1951 e, há 30 anos, em agosto de 1986, acabou invadida por assaltantes. Na ação, os ladrões abordaram a arquiteta, que estava sozinha, e roubaram 42 peças de sua coleção de joias – entre elas, um colar de águas-marinhas desenhado por ela em 1947 e avaliado em cerca de 500 mil dólares.

“Foi a primeira e única vez que Lina se decepcionou com o Brasil”, conta a presidente do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi, a museóloga Sonia Guarita do Amaral. É ela quem encabeça a empreitada para transformar em museu a residência do casal Lina Bo e Pietro Maria Bardi, os responsáveis pela criação do Masp. Para isso, conta agora com uma ajuda valiosa: por meio do projeto Joia de Artista, a joalheria Talento está lançando uma versão reeditada e limitada do colar. Dez peças numeradas, feitas artesanalmente a partir da única foto de Lina com a joia, serão vendidas por valores entre R$ 225 mil (com prasiolitas e ametistas) e R$ 415 mil (a réplica de águas-marinhas).

Além do percentual pelos direitos autorais, o Instituto ficará com um colar, que será leiloado. “O que mais me encantou na história foi o fato de Lina ser apaixonada por pedras brasileiras”, afirma Jacques Rodrigues, diretor da Talento. “Ela, inclusive, escreveu um manifesto defendendo as pedras e, por isso, criou o colar com linhas simples. A ideia era valorizá-las ao máximo.” E não se tratavam de águas marinhas quaisquer. Elas chegaram às mãos do marchand italiano Pietro Maria Bardi em 1946, ano em que ele e a mulher chegaram ao Brasil, por meio de Assis Chateaubriand. O empresário convidara Bardi para auxiliá-lo na abertura do Masp e não se sabe se o lote precioso de 62 peças foi um presente ou parte de um negócio. O que se sabe é que a outra parte do lote integrou o colar com o qual Chateaubriand presenteou a rainha Elizabeth II quando foi nomeado embaixador do Brasil na Inglaterra. 

Morta em 1992, Lina Bo Bardi foi uma artista completa. Além de projetar a própria casa, o Masp, o Sesc Pompeia e reformar o Teatro Oficina, desenhou itens de decoração, criou figurinos e cenários. E esboçou joias. Com curadoria de Waldick Jatobá e cocuradoria de Johanna Birman, o projeto Joia de Artista levará documentos dessa faceta da arquiteta e a reedição do colar de águas marinhas para a galeria Luisa Strina, em São Paulo, a partir do dia 13. Depois, a mostra seguirá para Rio de Janeiro, Belo Horizonte e Salvador.

Instituto busca financiamento para expor acervo dos Bardi

Diretoria da entidade planeja construção de anexo à Casa de Vidro para transformar espaço em museu permanente

Com recursos escassos para manter a Casa de Vidro, o conselho do Instituto Lina Bo e P.M. Bardi busca novas formas de financiamento para transformar a residência do casal em museu permanente. Hoje, o espaço sobrevive por meio de doações, locações e parcerias. Há também visitas guiadas e exposições temporárias, como a dedicada à produção de móveis assinados pela arquiteta italiana, encerrada em 31 de julho. A ideia é que, no futuro, o interior do imóvel tenha sua configuração original retomada, com maior destaque ao acervo da dupla, que possuía uma vasta coleção de arte.

Eles viveram na casa, tombada como patrimônio histórico pelo Condephaat, de 1951 até o fim da vida – Lina morreu em 1992, e Pietro, em 1999.“Ao longo dos anos, o espaço ficou descaracterizado. Precisamos tirar várias peças para montar escritórios e melhorar a circulacão de pessoas”, afirma a museóloga Sonia Guarita do Amaral, presidente da entidade que administra o local. “Queremos que a casa volte a ser exatamente como era quando o casal morou aqui, fortalecendo sua vocação para centro de referência em arquitetura, urbanismo, arte e design. Tudo relacionado ao que eles criaram.” 

O projeto do instituto prevê a construção de um prédio anexo à casa, onde ficará a reserva técnica, a área administrativa e parte do acervo. Apesar de não terem fechado um orçamento exato da obra, os conselheiros começaram a procurar patrocinadores da ideia. “Já solicitamos a alguns órgãos a possibilidade de ajuda. Temos o projeto, a planta e a maquete. Vamos ver o que conseguimos”, diz Sonia. 

Outra forma de angariar fundos é aumentar o número de reedições do trabalho de Lina. Além do projeto com a joalheria Talento, a empresa de mobiliário Etel lançou recentemente versões de cadeiras assinadas pela arquiteta (entre elas, uma de balanço e uma poltrona com três pés de metal).

A atual diretoria vem se esforçando ainda para tornar a entidade privada uma organização social – assim, comprovando que seus fins são de interesse da comunidade, poderá receber benefícios do poder público, como isenção fiscal. “Vamos ter um funcionamento mais profissional”, afirma a presidente. “Estamos ampliando nosso leque de atividades e costurando parcerias internacionais. A Casa de Vidro tem toda a tipologia de uma casa histórica e já possui reconhecimento mundial.” 

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