John Scofield, excelência na guitarra

Um dos jazzistas que empurraram o gênero em direção ao rock, funk e R&B nos anos 70, músico toca amanhã em SP

Jotabê Medeiros, O Estadao de S.Paulo

21 de maio de 2008 | 00h00

John Scofield é, ao lado de Pat Metheny e Bill Frisell, sinônimo de modernidade na guitarra jazzística norte-americana. Scofield gravou, entre outros, com o Soul Coughing, o Sex Mob, o Deep Banana Blackout e o Medeski, Martin & Wood. Em 2005, gravou o disco That''s What I Say, um tributo à música de Ray Charles. Isso o definiria como um artista crossover, pop, não fosse o fato de que ele também gravou com Gerry Mulligan, Chet Baker, Billy Cobham e Charles Mingus. Entre 1982 e 1985, ele gravou e excursionou com a banda de Miles Davis.É considerado um mestre da guitarra - não só pelo fato de que tem prazer em transmitir o que sabe às novas gerações, mas pela própria excelência na arte de tocar. Bom, aos 56 anos, Scofield está de volta ao Brasil a bordo do disco This Meets That, que ele lançou no ano passado pelo selo Emarcy. A procura foi tanta que tiveram de agendar um show extra no Sesc Vila Mariana. Scofield falou ao Estado por telefone, de Nova York.Como andam suas relações com a música brasileira?Bom, minha exposição à música brasileira começou ao mesmo tempo que eu conhecia o bebop. Em 1970, eu conheci Claudio Roditi e Victor Assis Brasil. Eles eram gente muito boa. Também conheci Célia Vaz. Essas pessoas me mostraram a bossa nova, que estava em ebulição naqueles dias, e eu adorei. É muito parecida com o jazz. A diferença está no ritmo, na marcação de samba, no amor pela melodia. Infelizmente, não conheci Jobim nem João Gilberto, mas Steve Swallow, o baixista que toca comigo, é amigo de João, tocou com ele nos anos 60. Ele fala muito sobre João.Steve Swallow veio ao Brasil algumas vezes, a última acompanhando Carla Bley. Carla e outros músicos, nos anos 60, levaram o jazz para o lado da vanguarda. Você ainda acredita em vanguarda hoje em dia?Acho que, hoje, é um pouco ingênuo tocar de uma forma completamente livre, como a vanguarda dos anos 60 propunha. E tem uma coisa: aqueles que tocavam de uma forma livre, bom, eles eram muito bem versados na música tradicional. Os vanguardistas tinham raízes e interesses na história da música. Ornette Coleman, por exemplo. Mas o que eles propuseram, a ênfase na improvisação, a liberdade, isso tudo serviu para abrir um pouco a cabeça dos músicos, fazendo com que hoje eles não sejam tão avessos à experimentação. A vanguarda me afetou definitivamente.Você, Bill Frisell e Pat Metheny sempre são citados como a santíssima trindade da guitarra no jazz. Sei que já tocaram juntos, mas qual seria o ponto em comum entre vocês?A conexão é que nós todos somos influenciados, como todos os músicos dos anos 70, pelo rock. Nós somos, na verdade, jazzistas, mas com uma abertura para as músicas de nossa memória: o funk, o soul, o R&B. Não vemos nada errado em tocar funk. Isso nos torna diferentes, de algum modo.Você não mencionou o hip-hop...Amo aquela batida. E eu amo aquela batida porque eu amo o funk, e eu sei de onde vem aquela batida. Também gosto muito do hip-hop, como o R&B de Ray Charles, que tem uma conexão profunda com o jazz.Você gravou muito nos anos 70 e 80 e nunca parou de gravar discos. Acaba de lançar mais um. A arte da gravação de um disco mudou muito nos dias atuais, com toda essa crise da indústria musical?Eu gravo exatamente da mesma maneira que grava antigamente. A diferença é que, hoje, com toda a tecnologia, você passa menos tempo no estúdio. Também se pode fazer discos mais baratos, o que ampliou o acesso aos estúdios e à gravação. As técnicas digitais, o Pro-Tools, tudo isso ajuda, não atrapalha. Claro que não se vende mais tanto CD quanto se vendia antigamente. O sistema de distribuição ficou diferente, mais modesto. Mas tem os shows, eles equilibram as coisas.Serviço John Scofield. Teatro do Sesc Vila Mariana (608 lug.). Rua Pelotas, 141, V. Mariana, 5080-3000. 5.ª, 18h (ingressos esgotados) e 21h. R$ 30

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