Jogos de cena múltiplos retratam Edgar Allan Poe

Vida e obra do escritor norte-americano, reconhecido por seus contos de terror psicológico, se entrelaçam em criação da Cia. O Grito, premiada por peças juvenis

Beth Néspoli, O Estadao de S.Paulo

15 de maio de 2009 | 00h00

Um espetáculo teatral pode servir para despertar interesse por uma determinada obra literária ou ampliar o conhecimento sobre ela. Claro, isso só vale se for desdobramento de uma criação artística autônoma, plena de sentido, e atraente por si só. Poe, Edgar, montagem da Cia. O Grito que estreia hoje no Centro Cultural São Paulo tem esse duplo objetivo: ser bom teatro e visitar vida e obra do escritor norte-americano Edgar Allan Poe (1809-1849).Dirigida por Roberto Moretto, a Cia. O Grito - título inspirado na pintura homônima de Edward Munch - foi criada em 2003 e já recebeu prêmios por peças infanto-juvenis como O Armário Mágico, Marujo o Caramujo e a Minhoca Tapioca e O Caso da Casa. Poe, Edgar é seu segundo espetáculo adulto, o primeiro foi Caça aos Ratos. "Queríamos experimentar jogos de interpretação múltiplos num espetáculo híbrido. A literatura de Poe mostrou-se ideal", diz Moretto, diretor-geral da montagem, que contou ainda com a participação dos diretores Eduardo Parisi, Lilih Curi e Tatiana Guimarães. Edgar Allan Poe é mais conhecido por seus contos de terror psicológico, nos quais os personagens são assombrados não por um monstro como nesses filmes de efeitos especiais, mas por seus delírios de culpa. É assim em O Gato Preto cujo personagem central é um homem que dá vazão aos seus instintos assassinos e seu crime acaba ?denunciado? por um gato de comportamento no mínimo estranho. "Mas seus contos policiais têm dinâmica racional com foco na dedução. E sua escrita de juventude é otimista."Moretto e Paula Chagas assinam a dramaturgia de montagem que, a julgar pelo texto, se baseia na vida do autor e na metalinguagem na construção das cenas. A ação da peça gira em torno dos próprios atores, primeiro sendo testados para integrar uma produção teatral sobre Poe, depois na preparação da futura montagem. "Uma das inspirações veio da Cia. dos Atores dirigida por Enrique Diaz que na montagem da A Gaivota trouxe para o palco o processo de criação."Alguns contos, como O Retrato Oval, são inseridos organicamente na trama. Por exemplo, o diretor do futuro espetáculo (Abel Xavier) pode se sentir atraído misteriosamente pela atriz que faz o teste (Ligia Borges) e expressar tal desejo com palavras de um personagem de Poe. Outros textos, como a poesia O Corvo, chegam à cena identificados. Mas há ainda outro plano, no passado, no qual dois coveiros (Alessandro Hernandez e Carol Cashie)conversam diante do corpo de Poe, numa cena bem-humorada, que remete tanto à peça Hamlet quanto ao próprio clima mórbido e fantasmagórico de alguns contos da obra em foco. "Poe teve uma vida muito conturbada. Seus pais morreram cedo, ele foi adotado por um família rica, mas tornou-se um jovem rebelde. Foi expulso de duas universidades, se desentendeu com o padrasto que o deserdou, viveu um tempo grande na miséria, aos 27 anos casou-se com uma prima de 13, que morreu mais tarde. Sua morte, aos 39 anos, ainda é um mistério. Ele foi encontrado na sarjeta, delirando, e não conseguiu contar como foi parar ali."Em sua pesquisa, os atores descobriram que houve uma disputa entre Estados pelo corpo de Poe. Assim, além dos coveiros, há outra dupla em cena, quase clownesca, de prefeitos (Leia Raposo e Perla Frenda) que disputam o corpo, e são assombrados durante esse ato. "Há temas recorrentes, como o assassinato por emparedamento, a morte, o delírio causado pela culpa. Para que a morbidez não fosse tom único, buscamos a poesia do Poe jovem."Na reta final da pesquisa, o grupo tinha acumulado muitas peças de uma espécie de quebra-cabeças sem forma conhecida. "Queríamos o hibridismo, mas um espetáculo precisa ser orgânico e buscamos isso pelo processo de criação que vem à cena. Os atores leem trechos de poemas, notícias sobre a Poe, sem representar." Isso permite também o oposto, a total interpretação, por exemplo, criar uma coreografia para o poema O Corvo, como suposta preparação da tal peça. ServiçoPoe, Edgar. 80 min. 12 anos. Centro Cultural São Paulo - Espaço Cênico Ademar Guerra. R. Vergueiro, 1.000, Paraíso, 3397-4002. 6.ª e sáb., 21 h; dom., 20 h. R$ 15. Até 5/7

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