Jogo que só termina com a morte

No comovente Terras Baixas, críquete é metáfora da luta pela sobrevivência num ambiente hostil

Entrevista com

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

15 de agosto de 2009 | 00h00

Em 2008 ele foi eleito pelos críticos ingleses o livro do ano na Grã-Bretanha e quase faturou o cobiçado Man Booker Prize. Não ganhou (perdeu para O Tigre Branco, do indiano Aravind Adiga), mas ficou na lista dos dez melhores livros do jornal The New York Times, recebeu este ano o prêmio PEN/Faulkner e frequenta a lista dos mais vendidos nos EUA desde que o presidente Barack Obama recomendou, em maio último, a leitura de Netherland. O livro chega neste fim de semana às livrarias brasileiras com o título Terras Baixas (Alfaguara, tradução de Cássio de Arantes Leite, 272 págs., R$ 42,90), um mês antes do desembarque de seu autor, o irlandês (e agora cidadão americano) Joseph O?Neill, no Rio de Janeiro. O escritor vai participar (dia 19 de setembro, às 18h30) da 14ª Bienal do Livro, ao lado de outros campeões de vendas - Bernard Cornwell, David Grann (Z, A Cidade Perdida) e Meg Cabot - e dos polêmicos Larry Rohter (Deu no New York Times ) e Andrew Keen (autor de O Culto do Amador). Joseph O?Neill é o típico cidadão do mundo globalizado. Nascido na Irlanda há 45 anos, descendente de turcos e irlandeses, ele passou sua juventude na Holanda, estudou Direito na Inglaterra e fez escala em Moçambique, Irã e Turquia antes de fixar residência em Nova York, onde vive com a família. Seu terceiro livro de ficção, Terras Baixas, como era de se esperar, é um exemplo de literatura pós-nacionalista - e, mais que isso, um sólido romance sobre permutações culturais em que um jogo pouco popular nos EUA, o críquete, serve como metáfora da exclusão social de imigrantes no país de Obama. Se é possível resumir numa única frase o livro de O?Neill, ela vem pela boca de um dos marcantes personagens de Terras Baixas, Chuck Ramkinssoon, caribenho de Trinidad que aparece boiando, com algemas no pulso, no poluído Gowanus Canal do Brooklin, logo no começo do livro. Mas vamos à frase: Chuck, um Gatsby de pele morena, diz a seu parceiro de críquete, o holandês Hans van den Broek, que os EUA não serão um país completo até assimilar o críquete. E o que quer dizer isso? Simples: que um jogo como esse, do qual só participam expatriados caribenhos e imigrantes asiáticos, tem de ser reconhecido para que o país de Obama se livre de vez da xenofobia provocada pela paranoia do 11 de setembro.Joseph O?Neill, também jogador de críquete, diz que jamais foi discriminado em Nova York. "Sinto-me em casa aqui, onde 40% da população vem de fora", diz em entrevista ao Estado, reconhecendo, contudo, que Nova York é exceção nos EUA. "Em outros cidades, por conta da crise econômica, muitas comunidades recebem pela primeira vez trabalhadores de pele escura e sentem-se ameaçadas pelo desemprego e a concorrência dos imigrantes."No livro, o imigrante holandês Hans van den Broek não teme exatamente o caribenho Chuck, obcecado pela ideia de criar um grande estádio para a prática de críquete no Brooklin. Analista do mercado financeiro e praticante do esporte, Van den Broek, ao contrário, dá corda ao ambicioso Chuck, que sabe como comover o holandês, cuja vida pessoal não vai nada bem - sua mãe morreu e a esposa e o filho partiram para a Inglaterra, traumatizados com o 11 de setembro.Sua vida muda ao abrir sua pasta em busca de documentos de trabalho. Van den Broek puxa um envelope com um livrinho de canções infantis holandesas dos tempos coloniais. Mesmo sem saber nada sobre Peter Stuyvesant - torturador de quakers e responsável pela expansão de Nova York - ou sobre a presença holandesa nos EUA, Van den Broek encara o presente de Chuck como um sinal. Ele estava destinado a ser amigo desse ex-pedreiro, fixado na lenda do miserável que virou milionário, mesmo contrariando seu instinto, que recomendava manter cautelosa distância do homem. Chuck fascina o holandês. Está determinado a provar que o críquete não é mania de imigrante - teria sido o primeiro esporte coletivo moderno dos EUA, antes mesmo do beisebol e futebol americano."O livro não seria o mesmo se o assunto fosse beisebol", sublinha O?Neill, justificando a escolha do críquete justamente pela "possibilidade de encenar um confronto entre o leitor americano e os estrangeiros". O homem gosta de briga. E provoca mais um pouco. Há sete anos, quando escreveu a primeira frase de Terras Baixas, tinha em mente um projeto ambicioso como o do protagonista Chuck. Claro, ele não queria construir um estádio de 8 mil lugares para a prática do críquete, mas pretendia retirar desse impopular esporte o estigma de antiamericano. Conhecia os riscos. Era o mesmo que escrever uma novela sobre um grupo pop ucraniano para o leitor inglês, comparou O?Neill quando o livro foi indicado para o Booker Prize. De fato, Terras Baixas só foi publicado nos EUA graças a Sonny Mehta, editor chefe da Alfred A. Knopf - conhecido por lançar o polêmico O Psicopata Americano, de Bret Easton Ellis, recusado por 11 editores. Detalhe: o editor indiano também joga críquete. E tem faro para best sellers de nível.O?Neill já estava se habituando à rejeição. Seu segundo livro, The Breezes, publicado pela Faber & Faber em 1996, foi recusado por Sally Singer quando a jornalista de moda da Vogue americana, sua mulher, trabalhava como editora na Farrar, Straus, and Giroux. Agora, com o êxito de Terras Baixas, ele se diz mais tranquilo para persistir na carreira. O cineasta Sam Mendes (Beleza Americana) vai adaptar o romance para o cinema. "Admiro Sam, que, além de bom diretor, é também um talentoso jogador de críquete, mas não quero criar grande expectativa, porque a literatura é uma coisa e o cinema é outra."Ele só espera que não se explore muito o lado espetacular da tragédia das Torres Gêmeas. "Tendo a concordar com meu personagem Hans quando, ao se referir ao atentado terrorista do 11 de setembro, diz que só quem estava lá pode ter a exata dimensão da tragédia, porque para os demais tudo não passou de um espetáculo, embora traumático." Para ele, Terras Baixas é, como O Grande Gatsby, um livro sobre o sonho americano que vira pó, embora ele seja ainda mais pessimista que F. Scott Fitzgerald. "Diria que o meu Chuck é mesmo um Jay Gatsby, mas com um toque de Saul Bellow."

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