Jimi Hendrix ganha biografia escrita por amiga íntima

Jornalista americana conta a sua versão da morte polêmica do guitarrista que mudou para sempre a história do rock

Antonio Gonçalves Filho, O Estadao de S.Paulo

14 de novembro de 2007 | 00h00

Três anos de carreira foram suficientes para o guitarrista norte-americano Jimi Hendrix virar mito. Até hoje, 37 anos após sua morte, o músico é lembrado como um visionário que antecipou basicamente tudo o que viria a acontecer na música pop na era pós-Beatles. O interesse de ouvintes jovens, que nem eram nascidos quando Hendrix morreu de overdose, em setembro de 1970, é grande o bastante para deixar brechas à indústria cultural, que não costuma desperdiçar produtos com potencial de venda. Uma nova biografia do ídolo, Jimi Hendrix: A Dramática História de Uma lenda do Rock (Jorge Zahar Editor, 356 págs., R$ 39,90), da jornalista americana Sharon Lawrence, é lançada para concorrer com outras já no mercado, entre elas a escrita há dois anos pelo jornalista Charles R. Cross (Rool Full of Mirrors), também biógrafo de Kurt Cobain. Discografia completa e trechos de músicas de HendrixOs fatos são inalteráveis, mas não sua interpretação. Se Cross concedia mais atenção à infância de Hendrix em Seattle, revelando sua luta contra a segregação, um pai ausente e uma mãe alcoólatra, Sharon Lawrence concentra seus esforços na carreira do guitarrista, que conheceu em 1968, um ano após sua apresentação no histórico Festival de Monterrey. Ele já era, então, relativamente conhecido nos EUA. Ao ler o capítulo em que a jornalista, ex-repórter da UPI, dá carona ao agente do guitarrista e atende a seu pedido para assistir a um show do músico, a impressão que fica nos leitores mais novos é a de que, graças a pessoas como ela, Hendrix chegou ao topo. Evidentemente, trata-se de um exagero.Em outros capítulos a jornalista é menos subjetiva e esquece que escreveu a biografia por ter sido amiga íntima do músico - tão íntima que leiloou dois maços de cigarros Salem fumados por Hendrix, servindo ainda como testemunha de defesa no processo que o músico enfrentou por entrar com heroína e haxixe no Canadá, em dezembro de 1969. Nesse episódio, a biógrafa garante que Hendrix estava limpo. Alega que a droga foi plantada em sua bagagem. Ela faz outras acusações sérias nessa biografia que não poupa a meia-irmã do guitarrista, Janie, nem a mulher que estava com ele na hora da morte, Monika Dannemann. A groupie, ou amante, teria demorado para avisar a polícia e chamar o hospital. Hendrix morreu de uma superdosagem de barbitúricos, sufocado no próprio vômito.Teorias conspiratórias não são desconsideradas nessa como em outras biografias anteriormente lançadas. No entanto, o modelo do livro de Sharon Lawrence é mais convencional e menos policialesco: quer mostrar, como se diz, o homem por trás do mito. A jornalista é do tipo que ajuda os amigos a escolher roupas e atende a pedidos de socorro às três da madrugada - e Hendrix, em ambos os casos, sempre recorreu a ela, a considerar o relato da autora. Em todo caso, são poucas as revelações que faz. Minimiza a consciência racial do músico ao afirmar, por exemplo, que, no início de sua carreira, em 1966, quando se juntou ao saxofonista King Curtis, era apenas um músico acompanhante sem grandes chances de ser ouvido como expoente de uma geração. Naquela época, só quem prestava atenção em seus solos eram os vendedores de guitarra da Manny''''s, na rua 48, e os boêmios do Village, seus primeiros fãs. Foi por esses anos que conheceu a prostituta de rua Regina Jackson (o nome verdadeiro era outro, admite a biógrafa), com quem viveu por algum tempo em hotéis baratos. Seus relacionamentos, sempre tempestuosos, são explorados com muita astúcia - e crítica - por Sharon Lawrence.Já a relação de Hendrix com músicos ganha menos destaque. Um dos episódios mais marcantes é o do seu encontro com outro mito do instrumento, Eric Clapton, na época integrante do grupo Cream, em outubro de 1966, um mês após o desembarque do guitarrista em Londres, que vivia o auge do pop. Hendrix aproveitou-se da situação e da platéia do Cream para eclipsar Clapton, sua influência e então reconhecido como o maior guitarrista da Inglaterra: tocou uma infindável versão de Killing Floor, sucesso do legendário bluesman Howlin'''' Wolf. Garante a biógrafa que Hendrix se arrependeu por ter tratado Clapton com tão pouco respeito.O Jimi Hendrix militante, que estraçalha o hino americano no Festival de Woodstock e é pressionado por grupos do movimento negro a se posicionar, é pouco explorado na biografia desse ícone do rock. Pena. Mas, a considerar a longevidade do mito, outras biografias serão escritas. Esta é a de uma amiga íntima e um tanto parcial.

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