Jean-Luc Godard, um gigante aprisionado

Morceaux de Conversations, documentário de Alain Fleischer, revela um cineasta preocupado em discutir estética e política

Luiz Carlos Merten, O Estadao de S.Paulo

22 de janeiro de 2009 | 00h00

Uma bomba foi lançada ontem nos cinemas franceses - é o filme Morceaux de Conversations Avec Jean-Luc Godard, de Alain Fleischer, documentário coproduzido pelo Centro Georges Pompidou, o Beaubourg, onde Godard realizou em 2006 sua exposição Collage(s) de France. Morceaux de Conversations é, como diz o título, uma colagem de diálogos de Godard. Sua origem é a exposição, que teve, ela própria, uma história sinuosa. Godard havia proposto um curso ao College de France. Foi rejeitado. Sua resposta à recusa foi a realização de uma série de nove documentários sob o título Collage(s) de France. A provocação é evidente. College/Collage. Godard quis lançar seu olhar crítico sobre o cinema, a televisão, a produção audiovisual em geral, com o objetivo de discutir tanto a estética quanto a política. Associado ao Fresnoy-Studio, o projeto incluía o diálogo de Godard com estudantes e personalidades escolhidas de comum acordo pelo artista e pela instituição. Além dos cineastas Jean-Marie Straub, Danièle Huillet e André S. Labarthe, do jornalista Christophe Kantcheff, editor de Politis, e do crítico e historiador Jean Narboni, Godard conversa com Dominique Païni, curador no Beaubourg, onde desenvolveu uma série intitulada Voyage(s) em Utopie, com exposições de Alfred Hitchcock e Jean Cocteau. Païni integrou Godard à sua utopia. Collage(s) de France virou uma mostra incluindo quadros, maquetes e filmes.Godard entrou para o museu. Tomou de assalto o Beaubourg como Anna Karina e Jean-Paul Belmondo, que corriam pelo Louvre em Band à Part. A exposição foi um sucesso, o documentário agora pretende ser ainda mais explosivo. Aliás, Godard desdenha - documentário, ficção, para que se preocupar? É tudo a mesma coisa, ele diz. Já era o que diziam seus copains na nouvelle vague, por volta de 1960. Passaram-se quase 50 anos. Na cena mais emocionante de Morceaux de Conversations, Godard conta a história do matemático que, tendo resolvido uma equação particularmente difícil, pediu uma audiência ao maior especialista governamental, que se recusa a recebê-lo. O matemático isola-se, enquanto os matemáticos ?oficiais? tentam resolver o problema que ele já havia solucionado. Godard emociona-se tanto, ao contar a história, que chora. O matemático, metaforicamente, é ele, claro. Godard queixa-se - é conhecido, mas não reconhecido. Connu, pas reconnu.A imprensa tenta decifrá-lo, mas tudo o que se escreve sobre ele é medíocre e revela uma profunda incompreensão de seu universo. Des conneries, ele reclama. Houve um debate na terça-feira entre Alain Fleischer e Dominique Païni no Panthéon, o cinema de Catherine Deneuve no Quartier Latin, próximo à Sorbonne. Fleischer explicou que fez o filme possível. Godard é um interlocutor difícil, que não facilita a vida para si mesmo nem para os outros. Godard polemiza. Ele provoca a também diretora Chantal Ackerman, que o acusou de antissemitismo em Notre Musique, na célebre cena em que mostra, por meio de fotos, os desembarques de judeus e árabes na Palestina. Godard chega a sustentar que os maiores antissemitas são mesmo os judeus.As provocações são muitas. Godard está cansado do cinema. No começo da nouvelle vague, ele - e sua geração - eram atraídos pelo novo, pelo que viam pela primeira vez na tela. Hoje, as imagens são tão gastas e repetidas que o velho Godard sonha com a última imagem, a definitiva, sobre qualquer coisa ou assunto. Morceaux de Conversations é muito rico e intrigante. Para godardmaníacos, será uma bíblia. Para Dominique Païni, após a morte de Samuel Beckett, Pablo Picasso e Jean-Paul Sartre, Godard é o último gigante do pensamento do século 20, confundidas todas as disciplinas. Um gigante estético e moral.Godard é para o cinema o que Picasso foi para a pintura. Picasso encerrou um ciclo da pintura que havia começado com a Renascença - uma exposição em Paris mostra, atualmente, os grandes mestres revistos pelo gênio cubista. Godard, que já disse que os irmãos Lumière foram os últimos impressionistas, apropria-se de mais de 100 anos de cinema com a crença profunda de que ele ainda pode refletir sobre o mundo. Mas, para isso, é preciso libertá-lo. O cinema, hoje, denuncia Godard, atende à distribuição, ao comércio, não à estética. Quem espera vê-lo bradar, por isso, contra Hollywood, talvez se surpreenda com seu elogio a, por exemplo, Bruce Willis. A voz de Godard é trêmula, ele parece frágil, mas a indignação é grande. Não por acaso, Dominique Païni o define como ?un bel monstre?, um belo monstro.

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