Japonesa Kimi Nii leva suas obras mais famosas à Caixa Cultural

Espaço também recebe exposição de obras inspiradas nos 'Trópicos' de Levi-Strauss

Celso Filho, O Estado de S. Paulo

02 de agosto de 2014 | 02h00

A técnica de Kimi Nii vem da tradição milenar do Oriente, mas os traços precisos são de influência do modernismo brasileiro, principalmente do construtivismo. A artista nipo-brasileira não faz somente uma ligação entre duas culturas. Ela mostra, pela cerâmica, que a arte pode ser tanto utilitária quanto contemplativa. E esta história é contada por algumas de suas obras mais famosas na exposição Nas Nuvens, inaugurada hoje, na Caixa Cultural.

De nacionalidade japonesa, Kimi Nii se mudou para o Brasil aos nove anos, em 1957. Começou seu trabalho no design gráfico, quando se formou em Desenho Industrial. Sua carreira com a cerâmica, no entanto, só nasce no final da década de 1970, em uma feirinha na Praça da República, quando ela fica fascinada com as obras de Massayuki Sato, com quem aprende a técnica manual de molde da argila.

De lá para cá, a ceramista ganhou nome e espaço tanto no Brasil quanto no Japão – com mostras no Plaza Gallery (1999) e no Espaço Manabu Mabe (2001), em Tóquio. Suas esculturas também viajaram por diferentes influências estéticas e inspirações. 

Da cronologia das suas esculturas, aparecem duas facetas. “Eu sempre me identifiquei muito com a arte concreta, mas no meio da minha carreira, eu comecei a olhar mais para plantas e flores tropicais”, explica a artista. A partir daí, surgiram suas experimentações mais orgânicas, como a série Donguris com peças que remetem a avelãs estilizadas.

Fazendo diálogos com diferentes vanguardas estéticas, Kimi não se restringiu. “Seja construtiva ou orgânica, a obra dela tem conexões com o modernismo brasileiro, como com os trabalhos de Amilcar de Castro e Sérgio Camargo”, define o curador da exposição Pieter Tjabbes. 

Em seus últimos trabalhos, que são um dos destaques da mostra na capital paulista, a ceramista se aprofunda no estudo das forças naturais. A observação da maneira como a areia cria figuras piramidais pela simples força gravitacional inspirou a série Ilhas, de 2014. Na série Nuvens, também deste ano, a aglomeração de tufos arredondados que, dispostas com as ilhas, forma um retrato geométrico da natureza.

Na Caixa Cultural, o lado mais geométrico e concreto de Kimi também está em destaque. Nas esculturas – que serão também expostas no Centro Cultural Correios, no Rio, em dezembro –, é possível ver diferentes características de sua arte, como a relação entre o interior e o exterior em perspectivas. Nas formas simples, ela trabalha encaixes e sobreposições, como se as obras possuíssem camadas. “Este trabalho dela é uma discussão da cerâmica como escultura. São objetos esculturais, que se distanciam do utilitário”, explica Tjabbes. 

Apesar disso, Kimi também empregou a mesma sofisticação às peças de suas linhas utilitárias, em vasos e conjuntos de chá, por exemplo. Dos fornos quentes, ela mantém a tradição do artesanato com sofisticação de acabamento e concepção.

Exposição discute os trópicos

Inspirados em Lévi-Strauss, artistas retratam experiências em países tropicais com obras multimídias

No livro Tristes Trópicos, publicado pela primeira vez em 1955, o antropólogo francês Claude Lévi-Strauss retratou suas viagens às Américas do Sul e Central, fazendo reflexões sobre as relações do antigo e do velho mundo. Quase 60 anos depois, três artistas europeus tomam o desafio de retomar a narrativa na mostra Os Trópicos, em cartaz na Caixa Cultural.

Colocando-se no lugar de etnógrafos, Marie Voignier, da França, Olaf Breuning, da Suíça, e Christoph Keller, da Alemanha, contam suas próprias impressões dos trópicos em trabalhos multimídias.

No filme Hinterland, Marie Voignier estabelece a relação entre o pintores e o progresso industrial europeu ao documentar uma ilha artificial dentro de uma base aérea soviética, reutilizada como complexo de lazer em uma cidade próxima a Berlim.

Também com o audiovisual, Olaf Breuning traz um viajante europeu em Home 2. O filme retrata a viagem do narrador em um grupo de europeu a Papua Nova Guiné.

Coletando plantas de uma viagem recente à selva amazônica, Christoph Keller apresenta a série de fotografias Herbário da Amazônia. São colagens em que folhas se contrastam com edificações da Antiguidade. 

A mostra também terá programação paralela com palestras e exibições comentadas. C.F.

KIMI NII – NAS NUVENS 

Até 5/10.

CLOVIS GRACIANO – ARTE DE CAVALETE 

Até 5/10.

OS TRÓPICOS 

Até 28/9.

Caixa Cultural. Praça da Sé, 111, Sé, 3321-4400. 3ª a dom., 9 h/19 h. Grátis.

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